É isto que é hoje normal.
Um tique, um mero tique de Ar.
Assoprar na aragem ósculos que nunca nos cheguem a tocar.
E é isto que é para mim anormal.
Assoprar ósculos languidos! Beijar o ar.
Com a mesma banalidade confrangedora
de quem nunca espera atingir a excelência
também eu hoje assopro ósculos no ar!
Assopro-os alinhavados à minha abstinência.
Assopro-os corroídos pela saudade deste sal.
A diluírem-se na chuva que se abate sobre o meu areal,
de dois corpos que se fundem na sensibilidade
da epiderme do ar que nunca se há-de tocar.
E na mão cheia de nada que de ti transborda.
Nas mãos de quem acha isto banal.
Volto a beijar o ar, desta vez com feracidade.
Afago o ar inócuo que torno numa linha frágil
Tão franzina que nunca chegará a ser uma corda
Que é só ar e ar e ainda mais ar.
O que nos podia unir, Ar, será só e unicamente esta atmosfera.
Temos entre ambos este ignoto mar
Pelo qual me rejeito a voltar a marear.
Rebentam em mim não vagas, mas crateras.
Sinto uma alegria momentânea
enquanto beijo o ar
e o imagino na minha cercania.
Enquanto sofregamente o afago.
Este ar podia ser o meu mago…
Assopro ósculos com vigor apoquentado.
Já beijei o ar dezenas, milhares de vezes
Este ar, sempre, mas sempre, sem nunca o chegar a tocar.
Passaram horas, dias, anos e meses.
E é sempre magnífico o teu desempenho, ar!
A energia desapaixonada com que recebes o meu toque
Ninguém que tenha o atrevimento de te contestar este tiquetaque.
Tiquetaque, tique, tique de ar!
Be A.- Isabel M.P.F.
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