PRÓLOGO
Chegaram
finalmente as férias de Natal, o que significa que vou ter muito mais tempo para
me dedicar aos meus jogos de estratégia. Os meus amigos já estão online prontos para me desafiar. Confesso
que já estou com pena deles e o jogo ainda nem sequer começou. Sim, mas antes
tenho de me preparar, o que implica abastecer-me na cozinha com alguns daqueles
deliciosos queques que a avó preparou e dois pacotes de leite com chocolate.
Agora
reparo que o avô está ali na sala sozinho, em silêncio, naquele cadeirão que
ele recusa trocar, por muito que os meus pais insistam. Ninguém entende muito
bem porque não compra um novo. Ele costuma dizer, na brincadeira, que também é
velho por isso também poderia ser trocado. O que até seria uma boa ideia. Tenho
fazer uma busca na net por outros avôs em melhor estado de conservação! Oh,
tenho cada ideia! A verdade é que não o trocava por outro. Mas ele anda meio
estranho nos últimos dias. Talvez seja por causa do tempo chuvoso que não lhe
permite dar os seus passeios a cavalo pela fazenda, ou talvez esteja adoentado.
Hum? Que vai ele fazer agora? Está a levantar-se. Ok, foi para junto da janela
ver a chuva a cair... Que interessante. Gosto muito do velhote, espero que ele
esteja bem de saúde. Vou prosseguir para a cozinha. Talvez a avó Carla esteja
mais animada. Snifff... Hmm.. Já sinto o cheiro dos bolinhos.
-
Olá, avó!
-
Olá, meu querido. Queres uns bolinhos quentinhos?
-
Não, não quero… poucos.
-
Come à vontade.
-
Avó, está tudo bem com o avô Martinho?
-
Sim, porque perguntas?
-
Por nada… Parece-me um pouco triste.
-
Bem, talvez esteja com algumas saudades do seu trabalho. Foram muitos anos
dedicados ao ensino. Não te preocupes, querido.
Deve
ser isso. Não imagino como se pode passar 50 anos a ensinar. Ainda por cima uma
matéria chata como linguística. Bem, mas sempre ouvi dizer que ele era um dos
melhores nessa área e que ficou muito conhecido nas universidades em Inglaterra
e nos Estados Unidos. Por mim, fico feliz que ele tenha decidido vir comprar
esta fazenda e viver no Brasil. E especialmente que tenha convidado os meus
pais para virmos morar com eles. É a fazenda mais bonita que conheço.
-
Jorge? – O meu irmão mais novo também veio fazer uma visita à cozinha. Olha-me
com aquela cara faloca que faz sempre que me vai pedir alguma coisa aborrecida.
Estou já a preparar-me para me evadir.
-
Diz Gustavo. – Coloco tudo rapidamente num tabuleiro que é mais fácil de
transportar, antes que o Gustavo tenha tempo de me responder e preparo-me para
me escapar sorrateiramente.
-
Queres jogar comigo na Playstation?
Pronto,
está tudo estragado! Não me consegui escapar. Mas ainda vou a tempo de arranjar
um suplente que ocupe o meu lugar.
-
Agora não. Por que não pedes à Renata? – Começo a afastar-me, já
com um tabuleiro de bolos e leite achocolatado pronto para seguir viagem para o
meu quarto. Gosto muito dos meus dois irmãos, Renata com dez anos e o Gustavo
com seis, mas talvez preferisse ter irmãos mais velhos que não me estivessem
sempre a pedir coisas. Às vezes eles conseguem ser aborrecidos. Já tenho 13
anos e nem sempre consigo ter paciência para brincadeiras de criança.
-
É sempre a mesma coisa… Nunca podes – reclama ele, fazendo automaticamente
beicinho.
-
Agora tenho os meus amigos à espera na net e vamos começar um jogo de
estratégia – disse-lhe, começando a distanciar-me dele.
-
Meninos, venham aqui. Quero falar convosco – O avô Martinho parece ter-se
cansado de estar em silêncio – Chamem a Renata também.
-
Vou já, avô – vou continuar em direcção ao quarto, pode ser que ele se esqueça.
-
Eu vou buscar a Renata – ofereceu-se Gustavo.
Que
temporal. A chuva está a bater forte na vidraça, mas há muita luz lá fora. O
sol não se escondeu e a clarabóia permite que o luz solar invada o interior da
casa. Com sorte, pode ser que a chuva pare e o clima permita que o avô vá fazer
os seus passeios. Não é boa altura para perder mais tempo, até porque já
comecei a receber mensagens dos meus amigos no telemóvel. Devem estar
impacientes. Calma, é só poisar o tabuleiro. Registo. Palavra-passe e…
-
Ó avô, o Jorge está à frente do computador! – Gritou o Gustavo ao passar pela
porta do meu quarto – Se ele não parar – prosseguiu – eu desligo-lhe o PC!
-
Meninos, venham cá todos! - Volta a chamar o avô.
Maldição.
Nem de férias parece ser possível ter um pouco de sossego. Que poderá o avô
querer a estas horas? Espero que seja rápido. É melhor levar o telemóvel para
avisar por mensagem que me vou atrasar um pouco.
Be A. - Isabel M.P.F.
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