terça-feira, 2 de dezembro de 2014

E depois do prólogo a história continua assim. - E continua sem ter título. - Como disse anteriormente é mais fácil escrevinhar que dar-lhe um título.

Capítulo I

Já havia desconfiando que algo de errado se passava com o avô. Não é muito frequente chamar-nos a todos, muito menos num sábado de manhã. Provavelmente quer dizer-nos que gosta muito de nós e que os meus pais são os melhores do Mundo. Era escusado estar a desperdiçar o nosso tempo com esta conversa, mas uma das coisas que os nossos pais sempre nos ensinaram a respeitar os avós e o muito que têm para nos transmitir. Por isso, nunca nenhum de nós ousou alguma vez desrespeitar ou desobedecer a algum pedido deles.
O avô Martinho indicou-nos o sofá creme de pele, onde adormeci tantas vezes e só me resta esperar que não vá contar nenhuma estória que me dê sono.
- Ó avô, eu estou a fazer um jogo… – protesto, arremessando-me para o sofá de braços cruzados.
- Entendo, é daqueles jogos que fogem se não fores a tempo? – Pergunta-me, sorrindo da minha impaciência.
O melhor é não perder mais tempo e deixá-lo dizer o que tem a dizer. Quanto mais tarde começar, mais tarde acaba.
- Sim, pode fugir o jogo, se ele não o gravou e a luz faltar. – Declara Renata, com ar de mestra.- Mas para isso era preciso que o gerador também falhasse. – Completa, virando-se para mim e percebendo que estava a ir por um mau caminho.
Gustavo sopra.
- Também quero jogar. Posso, mano?
- Não é para a tua idade. Vamos ouvir o avô, está bem?
- Vocês já olharam lá para fora? – O avô fez um gesto com a cabeça a indicar o exterior.
- Já chegaram os póneis? – Interroga excitado o Gustavo, vira-se apressadamente e vai até à janela para pesquisar o exterior com o olhar, esborrachando o seu nariz arrebitado na janela embaciada.
- Além de chuva o que há para ver, avó? – Averiguo com um bocejo.
Mas Renata estava mais disponível e descobre o que o avô pretende que nós vejamos.
- Um arco-íris. Que lindo! – Ergue-se do sofá e aproximou-se da janela. – Estás a ver ali, Gustavo?
Gustavo acena que sim e fica também a admirá-lo.
- Tem todas as cores, é lindo. – Murmura Gustavo.
Renata suspira ruidosamente.
- Só tem sete cores o espectro solar, mano. – Corrige Renata.
- Vou contá-las! – Afirma convicto que ela estaria errada.
- O arco-íris…- O avô Martinho olha novamente para o colorido no dia chuvoso – evocou na minha memória uma história que nunca contei e que chegou o momento de partilhar convosco, meus queridos. Passou-se há muitos, muitos anos. Como sabem, vivi a maior parte da minha vida em Londres e quero transmitir-vos uma parte importante dessa experiência. Olhem, digo mais, considero tratar-se de uma parte do meu legado.
- Você é legal, avozinho! – Concorda com um sorriso jubiloso Gustavo, com a concordância de Renata que se afasta da janela, sentando-se no apoio do sofá.
- Ui, estão a precisar de limpar os ouvidos com cotonetes. Eu disse “legado”, o que tenho para vos transmitir. Mas sim, espero que seja “legal”.
Dou um suspiro. Que pouca sorte. O tempo está a passar e continuo preso a este sofá, as horas estão estagnadas, como quando estou na escola. Os minutos tornam-se horas lentas a passar. O visor do meu telemóvel mostra 11h12.
- Jorge, vou apelar à sua paciência. Bem sei que é uma pessoa muito ocupada e com uma vida social muito intensa, mas talvez possa engrandecer esta noite o seu universo pessoal, sem precisar de premir nenhuma tecla – adverte-me, reparando que eu tinha olhado para o telemóvel.
- Avô, tenho o computador à minha espera no quarto. Ele é o meu melhor amigo. Eu preciso interagir com ele. Podemos despachar isto? – Reclamo, ao mesmo tempo em que recebo uma mensagem no telemóvel. “Qt tp mais, puto?” E respondo de imediato “5 mins”
Assistindo a este meu gesto, o avô franze o sobrolho.
- O computador é o seu melhor amigo e o telemóvel deve ser o segundo melhor amigo, não?- sem esperar a minha resposta, continuou – Poise ali o seu segundo melhor amigo. – Apontou para a mesa rectangular no meio da sala – e volte ao seu lugar para escutar o que tenho para vos transmitir – comanda.
Deveria ter tido mais cuidadoso. Agora estou mais perto da condenação e dirijo-me à mesa com a velocidade de um condenado a caminho da forca. Vou voltar a sentar-me mas não torno a abrir o bico. Nem mais um pio. Parece que a história vai mesmo começar.
- Espero bem que um dia todos vocês tenham a oportunidade de se cruzarem com um daqueles seres humanos especiais, ímpares, únicos pela sua sensibilidade e intuição, inteligência e valores morais e éticos.
- Que conversa é essa, avô!? Aqui somos todos especiais! Você não acha que somos todos especiais? – Insiste Renata.
Ah, não posso deixar escapar esta oportunidade.
- Ó avô, seres especiais? Eles estão comigo todos os dias! Mais especial do que sou é impossível! – Mostro-lhes a minha mão aberta. – Calma, calma, escusam de me agradecer. Por vezes, o prazer também é meu. É raro, mas acontece.
Provoco uma gargalhada nos meus irmãos. Acham-me cómico. Não percebem o quão irritado estou.
- Provavelmente deveria ser uma estrela da TV, um comediante, digo entredentes.
- Você é um astro-rei, Jorge. Todos vocês o são. São raios de luz que me aquecem o espírito. Mas é importante também que saibam ser humildes e reconhecer a grandeza dos outros. Bom, mas do que vos quero falar é da fortuna de uma descoberta que fiz há 40 anos que conheci Laura.
- Isso foi ainda no tempo dos dinossauros, avô! Descobriu por lá algum homem das cavernas? – Desafia Renata, não querendo ficar atrás de mim no capítulo das tiradas de humor.
- Se continuam a interromper, viro um Tiranossauro Rex. Cuidado! – Avisa o avô, provocando novo acesso de riso. - Como ia dizendo, um encantatório ser humano marcou a minha existência para sempre, como nenhuma outra pessoa. A menina completava nesse dia 5 anos. Ouviram bem. Cinco anos! Vão entender a seguir como foi possível a alguém de tão tenra idade ter um impacto tão forte na minha vida, assim como, estou convicto, na vida das pessoas com quem ela se cruzou. Vejam bem, eu creio, inclusive, ter sido ela a originar uma nova classificação dentro da espécie humana. É que, volvidos alguns anos, começou a generalizar-se uma denominação de Índigo ou Cristal para classificar uma suposta nova geração de crianças sobre-desenvolvidassobre-dotadas e de grande sensibilidade.
Simulo um bocejo enorme, mas o avô não lhe dá importância.
- A mãe já comentou que nós também éramos meninos Cristal! – Comenta, em tom baixo, Gustavo, virando-se para nós. Ele tem razão. A mãe falou nesse assunto, mas que interessa isso agora?
- Cuidado, cristal é frágil. Pode quebrar! E eu não quero que vocês se machuquem e fiquem em mil estilhaços – desvaloriza avô – Há muitos pais a acharem que seus filhos são especiais. Isso é normal. Eu também considero que vocês são os mais especiais meninos do planeta. Mas sabem, um pouco por todo o Mundo, especialmente nos países mais desenvolvidos, a partir da década de oitenta, muitos pais apresentaram os seus filhos como portadoras desses atributos, acrescentando-lhes, inclusive, poderes sobrenaturais. Progenitores, professores, educadores e psicólogos contribuíram para alguma mistificação. A minha experiência contraria essa generalização e não consigo detectar no carácter dessas crianças verdadeiras afinidades com as qualidades evidenciadas por aquela menina. Ah, ela chamava-se Laura. Vou contar-vos tudo o que sei e que vi deste magnífico ser humano.

Oh, não! Uma espécie de versão caseira da saga Harry Potter.

Be A - Isabel M.P.F.

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