Ontem depois de descer no elevador e deixar-te a ti no teu quarto de
estudante onde abundam o que são alguns dos teus espólios do passado,
resolvi que estava na altura de convidar-te para uma excursão ás
memórias que tenho. Vamos visitar o que presenciei. Esta será uma
daquelas visitas onde vamos conhecer o teu Château - mas a cicerone serei eu -
que nunca esteve em ruínas, mas já sentiu os efeitos das intempéries e
do desgaste e nas paredes. Pode ver-se alguns riscos, invisíveis no
entanto a um olhar menos cuidadoso.
Anda, vamos passear por a fase onde tudo te parecia fugaz e outras
onde parecias estar a sofrer de um encantamento. Estás a ver ali à
frente naquela janela, foi ali que te vi a andares às apalpadelas, a
continuares mesmo quando te parecia difícil andares, quando nem um
vislumbre da trilha a seguir conseguias vislumbrar.
Agora já existem vários caminhos de acesso à tua identidade pessoal.
Estão limpos, sem ervas nocivas. Foi onde mais tempo passaste a desbravar a tua consciência.
Estão a tornar-se em caminhos com aparência de jardim e o perfume
sem que o saibas anda a afaga-nos o rosto.
Ali; (Vou apontar, embora acredite no adágio: Não se aponta que é
feio.) Ergo a mão no ar e segue agora a direcção que o meu dedo
indica.- Sim. Aí mesmo. Estás a ver algumas marcas nas paredes? Foram
de momentos em que sentiste exaltação. Vamos aproximar-nos para ver que marca
é aquela que parece cinzelada. - Já me recordo. Foi quando descobriste
que existiam precipícios, fosse no teu universo, fosse no que te
rodeia. Descobriste na mesma altura que podes fustigar-te e que também
os outros podem fazer o mesmo.
Repara agora nestes vidros coloridos por onde vamos passar. Atenta,
não os quebres. Eles contam a história de como conseguiram
arrebatar-te. Julgaste que eram pedras preciosas formadas de carbono
puro, no entanto eles sempre foram o mesmo, só que insististe ver
aquilo que não estava lá. Era possível este corpo sólido transparente
vir a ser um diamante, mas julgo que isso teria de partir deles e não
de ti.
Algumas lágrimas de desilusão ainda os estão a orvalhar, eles
próprios devem lacrimejar, porque não gostaste verdadeiramente deles,
mas da imagem que acarinhaste no teu pensamento.
Agora cuidado, não escorregues, no entanto se conseguires peço que
aprecies o que a sofreguidão, a maldade, a injustiça alheia e tudo o
que te pareceu negativo provocou nesta parte do terreno, foi aqui
precisamente que deste conta da tua vulnerabilidade. - Parece ocupar
mais espaço do que a última vez que o visitei. Estava a esquecer-me
que foi aqui que descobriste o que acarreta não ter receio de
expor-te à ternura. Alargaste as tuas defesas, por isso a vala está
mais larga. Foi perto deste sítio que acompanhei a tua evasão à
realidade até regurgitares aqui toda a mágoa que sentias e tremula
procurares o meu abraço até os soluços se dissiparem e dormitares
agitadamente. Os teus primeiros eclipses…
É tarde… Este é um local tão bom como outro qualquer para descansar.
Não existem espectros a assombrá-lo, ou se existem não os temo. Vou
recostar-me nesta almofada de emoções e sentimento que rodeia este
silêncio sepulcral e amanhã continuo o passeio. Podes deitar-te em
qualquer destes lugares que ficam no teu interior o carinho vai velar
por ambas.
Uma noite descansada, minha filha. Até amanhã.
Be A. - Isabel M.P.F.
Sem comentários:
Enviar um comentário