Do umbral do meu passado,
guardo um desenho onde estarás
para sempre fossilizado.
À minha ausência, juntou-se a tua.
A nossa ausência. A catalepsia crua
de um momento pesado.
Guardo o desenho,
desejo apressar o fim,
quero guardar-te
entalhado na minha memória.
Naquela alegria temporária,
fizemos um e outro recorte.
Aparecemos no antigo faroeste do que já fui,
do que já foste, do que queria e quiseste.
Colocaste-me um revestimento que nos obstruiu.
Tenho saudades dos tempos sem revestimentos.
Saudades do sentimento que contigo usufrui
.Saudades de tantos momentos…
Lembro-me de um tempo quando tudo era distinto…
Já não aguardo o nosso retrocesso…
àquilo que não esqueço.
Na ausência que sinto.
A incandescente exposiçãoa ti, solar radiação
retira-me essa pretensão.Não, não foi só uma aspersão
que se abateu sobre mim…O teu espírito trovejou sobre o meu,
O ocaso do meu céu.Rabanadas de ausências ácidas e ciclónica emoção,
flagelaram-me sem comiseração.
Colocaste-me um véu.
Confundiste o que sou.
Mais um equívoco.Mais um!
Fizeste mais uma e outra incisão…
Naquilo que faço, digo e invoco.
Alheio à dor que me cedeste, insisti ingluviosa.
Bombardeaste-me, pisoteaste-me, tornaste-me odiosa.
Sonhaste-me, imaginaste-me não como sou,
mas como ansiavas que fosse.
Todo o meu universo já escorregou,
entre o golfo e a enseadada ausência que me esquartejou.
Até me descobrir esfarelada…
Debati-me, emendei-me num milavo
.Sem conseguir chegar a um oitavodo que sou,
do que aspirava mostrar
.Evito revistar as feridas que prefiro não recordar.
Eu entendi. Eu entendo que assim seja.
Mas um vestígio de mim não peleja.
Cedeste-me um episcopado que presumias saber tratar…
E eu que nem sabia mais como lidar com esse motim
deixei-nos estar. Preferi assim a ter de enfrentar,
A preflorescência do nosso fim...
Nada anunciava que seria assim.~
Ou, se anunciava, eu não quis acreditar.
O que gerou este frenesim?
Procuro por ti nas minhas memórias, onde pulsas feliz~
Onde quis ser estimada, acarinhada e amada
.Onde ainda era uma flor-de-lis.
Antes do fim da melodia.
Antes da ausência e da amusia.
Serei nómada, daqui a nada.
Preâmbulo de afasia.
Esta neblina tornou-nos nesta velharia.
Procuro o ponto exacto onde nos transformamos.
Onde estás? Onde estamos?
Todas as minhas memórias de ti são diáfanas, imaculadas glórias.
Porque te tornei apenas nisto?
Porque nos tornaste apenas nisto…
onde me dissolvo num só registo.
Usas o esfregador, apagas-me das tuas memórias
.A despedida está no mesmo móvel
onde tanto de ti existe para recordar.
Anteriormente memorável.
O presente rasgou-nos a continuação. Resta-me apenas a expressão amar.
Be A. - Isabel M.P.F.
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