domingo, 7 de dezembro de 2014

Espírito grandioso


Tacteias o momento com um cuidado redobrado. Acordas com receio do que hoje terá para te ofertar. Secretamente olhas para o relógio, implorando que o tempo, este tempo onde te sentes cativa da dor, passe num ápice, mas os minutos parecem passar de forma indolente.- Vi-te por várias vezes com o olhar preso no relógio da cozinha e a expressão de desânimo no teu rosto, quando comprovavas que afinal não tinham ainda nem passado cinco minutos. Ao mesmo tempo preocupa-te que se passar, venha a ser como ontem e dês por ti a viver num local onde os outros abandalham a tua existência.
 “- Porquê, mãe? Porquê?”- Repetes mais uma e outra vez o mesmo e eu fico inerte sem conseguir responder-te.
Preocupa-me que a tua construção esteja em perigo de derrocada parcial, embora não o afirmes directamente, vais dando sinais de que algumas pedras da tua construção já se soltaram não estás a conseguir lidar com a dor, por isso uso tabiques e reforço o teu telhado e as vidraças que algumas pessoas tem tido o descuidado de danificar com as suas pedradas e ventanias.
Mostro-te que jamais o teu espírito se tornará uma ruína, seja porque tens mais coragem do que aquilo que imaginas, seja porque até que necessites eu serei o teu apoio e aviso-te já que tenho já andaimes e cimento para retocar o que foi danificado, isto para o caso de tu não o fazeres. (Sei que acabarás por usar da tua tinta, do teu cimento, mas até lá eu empresto-te dos meus. Se bem que mais tarde tenho de te cobrar com juros o uso do material!!!)
 Clamas por compreensão, por entendimento. Não o fazes com som, mas sim com o teu espírito, por isso e só por isso os outros não imaginam que neste momento não deviam contribuir ainda mais para o teu desgosto. Clamas por esperança, enquanto os pilhantes, os que te querem transformar o espírito numa pústula, tapam os ouvidos, ou sofrem de surdez e cegueira crónica e simplesmente parecem ignorar a tua dor .
Omites a lamúria, a dor, a tristeza, o desconsolo, a saudade, que não te deixa adormecer e enfrentas as querelas desses que te acompanham no dia-a-dia. Ninguém parece entender que te sentes mais frágil que noutro momento qualquer, nem assim são menos vorazes. Nem assim evitam ressequir-te mais . Mas não é desses que reza este momento. Mas sim daqueles que estão dispostos a gostar de ti pelo que és e te estendem a mão com carinho.
Sei que acabarás por escapar incólume, embora hoje te pareça que tal é improvável, já que agora tentam enredar-te com aquilo que opinam, com os seus olhares, com os seus ditos.
Além da resignação, tens o teu espírito grandioso, tens a coragem e isso jamais os outros podem profender!

Be A. - Isabel M.P.F.

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