quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Contracapa

Carrego este fardo como se fosse uma colcha
que, mesmo em pleno estio, não sei como arrumar.
Nem no Inverno me tem serventia, a brecha
no espírito não existe como a calafetar.

Além do fardo, carrego um alarme quesito
a tilintar sempre que alguém se abeira.
Cumpro penitência em gesto contrito.
Mescla de invisibilidades da minha cegueira.

Não sei qual de nós está mais desfeita,
se eu ou o fardo, ou a farda que uso a eito.
Aquilo que penso e aquilo que sou
em sincronia, em identidade estreita.

Bruxuleante é a hipérbole onde estou.
Entre mim desfiada e a manta desfeita.
O travo faz parte de mim, enquanto manto,
e do trapo em musicado pranto…

Partilhamos o mesmo universo, a mesma aerosfera.
Uma azinhaga policópia no fim da quimera.
Um dia farei uma excisão…
Quando essa sobremanhã chegar
Espraiar-se-á a conclusão.
E eu não terei mais de adejar
em meditações incoerentes.
Espraiar-se-á a conclusão:
Seremos coisas diferentes
Não serei mais essa coisa.
Teremos diferentes visuais.
Seremos a mesma coisa
mesmo sendo coisas desiguais.
Até lá, continuo inanimada.
O ser e não ser num único trilho.
Recomponho-te, embrulhando-me mais.
Continuo… Com o meu espartilho…
Só a contracapa conta os meus Ais.

Be A. - Isabel M.P.F.

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