domingo, 7 de dezembro de 2014

Château II

Depois de ter despertado, resolvi que ainda não era o momento certo de 
acordar-te e assim aguardei que a tua vista se abrisse, nesses 
entrementes, fui recapitulando umas das tuas últimas frases a meio da 
nossa visita ao teu palácio:
“- Ouves-me, mas não me escutas!”
“- Estou a pensar colocar uma mochila às costas e zarpar.”
Ressoaram por estes dias, pedindo-me compreensão e informaram-me que 
nem sempre faço o que consideras ser o melhor, o que aceito e 
respeito, mas gostaria que soubesses que faço o melhor que consigo 
fazer. Acima de tudo quero que saibas que seja qual for a tua decisão, 
podes sempre contar com o meu apoio.
Espreguiças-te e o carinho que sinto por ti, afaga-te numa carícia 
invisível. Murmuras um bom dia e preocupas-te com o tempo que 
estiveste a dormir.,- o teu sarcasmo já nos viu e penso que não teremos 
como lhe escapar a menos que despertes de vez e te ergas. Recorres ao 
sarcasmo como forma de salvaguardares o teu universo e de tornares os 
receios mudos e a tua graciosidade parece recolher-se ao isolamento.
Criaste fossos para te proteger, criastes valas por achares que 
carecias delas para que ninguém invadisse o teu reino. - Acredito até que 
terás até um ou outro animal esfaimado se alguém se atrever a tentar 
conhecer o teu interior. - Passamos por mais um fosso.
- Cuidado! Não te aproximes tanto da beira! - puxo-te carinhosamente 
por o braço e penso que seria gratificante ver estes espaços tornados 
piscinas onde te visse a banhar-te em harmonia e tranquilidade.
Deixamos o silêncio sepulcral para trás e continuemos agora ali por 
aquele atalho que vai dar à tua habitação. - É imenso este local…Será o 
espaço onde não colocas expectativas nos outros e os tentas entender e 
tentas plantar exaustivamente o auto conhecimento? Ou o espaço onde 
permites continuar sem que o teu passado continue a projectar-se no 
teu presente? Pode ser o espaço que confina com o fim da tua 
herdade…Não sei. Meneio a cabeça, pois sei que aqui pode vir a ser 
mais um espaço resplandecente, mas tudo dependente de ti. Aliás toda 
esta viagem que estamos agora a fazer só é possível porque já a 
fizeste. E eu que te acompanhei até aqui, apreciei cada etapa, mesmo 
aquelas que foram mais complicadas para ti e ainda aquelas que 
provocaram atrito entre ambas, mesmo essas recordo com carinho. Não 
tiro fotografias no entanto tenho um álbum mental repleto de 
fotografias de quem mais amo.
Ali ao fundo perto da casa está um precipício, mas ao lado mesmo junto 
à segunda janela está uma porta onde reinventaste a esperança, não 
vamos hoje visitar o interior do monumento, vamos só saborear a sua 
graciosidade. Podes observar agora o meu olhar embevecido. Quero que 
saibas que não considero a ternura pieguice. Mas um dia penso que te 
passei esse testemunho. Todos somos mutáveis e sim noutra altura da 
minha vida, era contra demonstrações de afecto, por considerar algo 
privado e íntimo. Hoje provoca-me um sorriso ter um dia pensado assim.
Aceno-te um até já e fico por aqui mais um pouco. Gosto da 
luminosidade deste espaço e da musicalidade que esteve sempre presente 
em toda a visita a este momento. Folgo em não estar a perder a 
faculdade de ouvir-te, mesmo que nem sempre tenha a faculdade, ou 
sensibilidade, para entender correctamente.
- Gosto da tua melodia, miúda.
Podes olhar-me estupefacta, mas oiço a tua música com uma clareza 
indescritível.
Abre a mala que carregas todos os dias. Liberta todas as tuas 
tonalidades e deixa-me um arco-íris, enquanto velo pelos teus eclipses.
 Até já.

Be A. - Isabel M. P.F.

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