Depois de ter despertado, resolvi que ainda não era o momento certo de
acordar-te e assim aguardei que a tua vista se abrisse, nesses
entrementes, fui recapitulando umas das tuas últimas frases a meio da
nossa visita ao teu palácio:
“- Ouves-me, mas não me escutas!”
“- Estou a pensar colocar uma mochila às costas e zarpar.”
Ressoaram por estes dias, pedindo-me compreensão e informaram-me que
nem sempre faço o que consideras ser o melhor, o que aceito e
respeito, mas gostaria que soubesses que faço o melhor que consigo
fazer. Acima de tudo quero que saibas que seja qual for a tua decisão,
podes sempre contar com o meu apoio.
Espreguiças-te e o carinho que sinto por ti, afaga-te numa carícia
invisível. Murmuras um bom dia e preocupas-te com o tempo que
estiveste a dormir.,- o teu sarcasmo já nos viu e penso que não teremos
como lhe escapar a menos que despertes de vez e te ergas. Recorres ao
sarcasmo como forma de salvaguardares o teu universo e de tornares os
receios mudos e a tua graciosidade parece recolher-se ao isolamento.
Criaste fossos para te proteger, criastes valas por achares que
carecias delas para que ninguém invadisse o teu reino. - Acredito até que
terás até um ou outro animal esfaimado se alguém se atrever a tentar
conhecer o teu interior. - Passamos por mais um fosso.
- Cuidado! Não te aproximes tanto da beira! - puxo-te carinhosamente
por o braço e penso que seria gratificante ver estes espaços tornados
piscinas onde te visse a banhar-te em harmonia e tranquilidade.
Deixamos o silêncio sepulcral para trás e continuemos agora ali por
aquele atalho que vai dar à tua habitação. - É imenso este local…Será o
espaço onde não colocas expectativas nos outros e os tentas entender e
tentas plantar exaustivamente o auto conhecimento? Ou o espaço onde
permites continuar sem que o teu passado continue a projectar-se no
teu presente? Pode ser o espaço que confina com o fim da tua
herdade…Não sei. Meneio a cabeça, pois sei que aqui pode vir a ser
mais um espaço resplandecente, mas tudo dependente de ti. Aliás toda
esta viagem que estamos agora a fazer só é possível porque já a
fizeste. E eu que te acompanhei até aqui, apreciei cada etapa, mesmo
aquelas que foram mais complicadas para ti e ainda aquelas que
provocaram atrito entre ambas, mesmo essas recordo com carinho. Não
tiro fotografias no entanto tenho um álbum mental repleto de
fotografias de quem mais amo.
Ali ao fundo perto da casa está um precipício, mas ao lado mesmo junto
à segunda janela está uma porta onde reinventaste a esperança, não
vamos hoje visitar o interior do monumento, vamos só saborear a sua
graciosidade. Podes observar agora o meu olhar embevecido. Quero que
saibas que não considero a ternura pieguice. Mas um dia penso que te
passei esse testemunho. Todos somos mutáveis e sim noutra altura da
minha vida, era contra demonstrações de afecto, por considerar algo
privado e íntimo. Hoje provoca-me um sorriso ter um dia pensado assim.
Aceno-te um até já e fico por aqui mais um pouco. Gosto da
luminosidade deste espaço e da musicalidade que esteve sempre presente
em toda a visita a este momento. Folgo em não estar a perder a
faculdade de ouvir-te, mesmo que nem sempre tenha a faculdade, ou
sensibilidade, para entender correctamente.
- Gosto da tua melodia, miúda.
Podes olhar-me estupefacta, mas oiço a tua música com uma clareza
indescritível.
Abre a mala que carregas todos os dias. Liberta todas as tuas
tonalidades e deixa-me um arco-íris, enquanto velo pelos teus eclipses.
Até já.
Be A. - Isabel M. P.F.
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