sábado, 27 de dezembro de 2014

Reflexão

- Não te ama? – Paciência! O infortúnio é dele, não é teu.
Esbugalhaste o olhar enquanto murmuravas:
- Não entendes, mãe. - Não podes entender! Não sabes o que são sentimentos não correspondidos! – Baixas o teu olhar de outono e continuas convicta: - Não sabes…
- Tenho total consciência do quanto desconheço.
No espaço que acreditas que desconheço instalou-se o silêncio sepulcral. – É verdade que não sei muito. Reconheço que nunca fui nem serei omnisciente. – Se o fosse serias filha de uma divindade. Não creio que acharias muita graça a isso. Embora confesse que possuir o entendimento total sobre tudo teria sido uma bênção neste momento.
Mesmo não passando de um ser humano, sei que quando os sentimentos não são recíprocos as horas movem-se lentamente. Esperamos ainda um milagre perante a intangibilidade de um sentimento que não é retribuído. Parecemos estar perante um exercício de masoquismo do qual não parecemos saber sair. E por mais que custe ouvir, também sei que sem arrumares a esperança de que essa pessoa pode ainda amar-te, não tens como avançar. E mereces ser amada.  – E um dia seja amanhã ou daqui a muitos anos, essa pessoa aparecerá sem que a esperes. – Não quererá estar ausente. – Vai querer estar presente, miúda. – Não inventará desculpas para estar distante. – Fará da distância um aliado.
Quando o silêncio foi interrompido pelo teu soluçar em vez de te abraçar, tive um acesso de senso comum. – Se eu fosse omnisciente nunca teria dito isto!
- Por mais que te soe a fatalidade…Não faltam miúdos. Um deles será especial para ti e corresponderá. – Por vezes, só por vezes o meu senso comum impera. – Mas tu não queres outro. É a esse miúdo a quem dedicas o teu afecto. Mas meu amor infelizmente não é retribuído… Se algo te provoca tanto bem-estar como mal-estar, deve ser banido da tua vida. Se a pessoa não corresponde. Se nada faz para que exista uma relação e só se distancia…E em vez de ajudar a criar uma ponte, só te anda a provocar é tristeza e solidão…

Sei que parece difícil agora distanciar-te. Melhor do que imaginas. – No entanto quando não é correspondido o afecto, estamos perante um acto de masoquismo. – Chegou a hora de reflectires se é isso que queres para ti. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Palavras

Como posso resgatar-me ao que decidem?
Vós que sois os filólogos que só amam palavras
E eu que no fundo só lhes dedico um profundo e visceral desprezo.
As palavras sem acções associadas são os nossos desertos.
Não me deixam atónita.
Nem quando confundem ingenuidade
Com crença na humanidade.
Enquanto secretamente rezo para que a confundam com alienação.
Em certas pessoas as palavras tornam-se tiranas e nós servos delas.
A minha servidão a existir nunca será por isto.
Palavras são tantas vezes nada mais que manobras de diversão.
Uma língua morta a aguardar um língua viva
Num objecto, num sinal, num símbolo
E quando não andam acompanhadas de acções

São só iniquidades.

Be A- Isabel. M.P.F. 

Saudades

Facebook - Be Apodítica - Isabel M.P.F.

Estão algures entre a claridade e as sombras
De retratos que o tempo conservou
Numa ponte que entre nós nunca se quebrou
Na margem das minhas penumbras.
Ficou naquele espaço a vossa doce memória.
Ontem no meio da consoada e da alegria
Nas fotografias penduradas que nos sorriam,
Que me lembram o que faziam e diziam.
Tive de me erguer e sair do mausoléu.
No jardim continuam a nascer tudo o que ali cultivaste.
Até a cadeira que te conheceu alegre e triste.
Agora já só aqui me sento eu.

Be A - Isabel M.P.F.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Estou aqui

- "É a minha mania..." - "Tenho manias..."
Todos temos padrões repetitivos e persistentes. Não considero grave. A menos que a mania a que te refiras, seja a que é conhecida como crise da Mania, ou
Episódio Maníaco! (Humor eufórico ou facilmente irritável, incapacidade de concluir um pensamento, delírios de grandeza, conseguir e necessitar conversar ininterruptamente durante horas a fio. A chamada conversa da treta, onde se recorrem a trocadilhos, senso comum e adágios.)
Andam para aí muitos maníacos, mas não é o teu caso.
Já quando resolves sitiar o teu universo, isso sim é uma mania manhosa…
 Nunca lidaste bem com a sensação de impotência. (Mas não conheço ninguém que lide bem com ela. Também não é preocupante.) Quando acontece, resolves que tens fazer algo, seja de forma consciente ou inconscientemente a verdade é que fazes sempre algo. (Aqui está uma mania que tens mantido desde criança).
Vociferas por todos os poros, mas raramente tornas audível aos outros o que pensas. Vociferas em silêncio:
- Tenho direito a pelo menos a uma existência tolerável, por isso não me aborreçam o cérebro! Não me rotulem! Não me massacrem com as vossas opiniões sobre o que faço ou deixo de fazer, se só viram uma parte do filme, porque teimam em querer contar a totalidade do que não viram e nem sentiram? Guardem as vossas sacrossantas opiniões sobre os outros, mas a mim não me estripam mais com palavras, nem com olhares!
Meneio a cabeça quando sinto o teu sofrimento. Estendo-te o meu carinho, mas sem imposições, ou obrigações. Estou aqui, estarei sempre aqui.

Be A - Isabel M. P. F.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Depois II

...Depois, descubro que por vezes faço-te ter frio. Que subo vezes demais na montanha e depois já nem sei se a montanha sou eu, se sou eu a querer ser algo que me proteja. Mas hoje, olha, estou a descer desta montanha, que acredito fazer parte de mim, mas nunca será a minha totalidade. Vou visitar o teu vale, que nunca esqueço. (Mas tenho ravinas e por vezes fico presa nelas.) Depois da conversa do outro dia onde quase me pareceu que me acusavas de te ter desarreigado, ao deixar Coimbra, eu comecei por recorrer a uma desculpa. - Deixei Coimbra, porque...Porque... Tu sabes as desculpas que dei a mim mesma... Uma delas que tenho de dar-te espaço. Outra que tenho de respeitar o teu espaço. Outra; Que sei que és sui generis, (E és, miúda, e és.), mas que raio terá isso a ver com a minha saída dessa terra? "- Nada, Mãe!" - Dirias tu já a olhar-me de soslaio. - Deixei Coimbra, não por tua causa, mas isto é redundante, pois sei que sabes que assim é, mas porque necessitava mudar de cidade. Um local pode sufocar-nos. Ter demasiadas memórias, ter um ambiente que nos consome e eu ao contrário de ti, meu amor, nem sempre fico e enfrento.  - Ei! Mas atenta nunca te disse que era perfeita, antes pelo contrário desde petiz te tenho dito que sou imperfeita. Aliás se fosse perfeita, nunca teria acontecido uma conversa como aquela do fim-de-semana. Talvez o que me tenhas tentado transmitir é que sentiste desamparo, quando eu considerei que sempre estive para ti, mesmo não estando a viver na mesma cidade. Mostraste a tua artilharia e eu, resolvi apresentar-te a minha. Uma artilharia pesada de artifícios, que só serve para que ninguém se aproxime de mim o suficiente, que depois de a usar sempre me parece ser algo carnavalesco que uso para driblar quem me assusta, ou quando receio enfrentar algo que preferia não ter de encarar. Com as minhas crias, foram raras as vezes em que resolvi afundar e afundar-vos numa conversa mais....Digamos mais acalorada. Quando se enervam eu mantenho-nos à tona e jamais em tempo algum, aproximo a língua dos dentes e regurgito uma conversa estéril, até ... Que foi exactamente o que fiz no fim-de-semana passado. (Isto soa-me a título de filme!) Agi como uma primata e embora tenhas escutado desde petiz que as desculpas não se pedem evitam-se. (Eu comecei a frase com, agi...Rectifico já!!! Eu sou primata! As desculpas pedem-se, até porque neste caso, não as consegui evitar. Agora quero que saibas que entre ser primata ou insecto, eu cá escolho o segundo e passas a ser parte da família dos Grilídeos, até porque no que diz respeito às pessoas que amo a minha melodia costuma ser: - Gri Gri...Desculpa, por ter sido uma alarve e ter dito o que disse. (Se és parecida com alguém...É comigo, sua...Sua Montanha!)...Gri Gri...Alto!!! Embora a bem da verdade acredito que sejas semelhante a ti mesma e que existam traços na tua personalidade que sejam similares aos meus, o que é perfeitamente natural, sendo eu a tua educadora.
Be A. - Isabel M. P. F. 

Depois

Depois da ausência....
...Depois, descubro que por vezes faço-te ter frio. Que subo vezes demais a montanha e o meu pensamento esconde ravinas, onde me quedo e até as conseguir entender, fico sem saber se a montanha sou eu, se sou eu a querer ser algo que me proteja.
Mas hoje, olha...Estou a descer da construção, que faz parte de mim, mas jamais será a minha totalidade e venho até ao teu vale que nunca esqueço.

Be A - Isabel M. P. F.

Espírito grandioso


Tacteias o momento com um cuidado redobrado. Acordas com receio do que hoje terá para te ofertar. Secretamente olhas para o relógio, implorando que o tempo, este tempo onde te sentes cativa da dor, passe num ápice, mas os minutos parecem passar de forma indolente.- Vi-te por várias vezes com o olhar preso no relógio da cozinha e a expressão de desânimo no teu rosto, quando comprovavas que afinal não tinham ainda nem passado cinco minutos. Ao mesmo tempo preocupa-te que se passar, venha a ser como ontem e dês por ti a viver num local onde os outros abandalham a tua existência.
 “- Porquê, mãe? Porquê?”- Repetes mais uma e outra vez o mesmo e eu fico inerte sem conseguir responder-te.
Preocupa-me que a tua construção esteja em perigo de derrocada parcial, embora não o afirmes directamente, vais dando sinais de que algumas pedras da tua construção já se soltaram não estás a conseguir lidar com a dor, por isso uso tabiques e reforço o teu telhado e as vidraças que algumas pessoas tem tido o descuidado de danificar com as suas pedradas e ventanias.
Mostro-te que jamais o teu espírito se tornará uma ruína, seja porque tens mais coragem do que aquilo que imaginas, seja porque até que necessites eu serei o teu apoio e aviso-te já que tenho já andaimes e cimento para retocar o que foi danificado, isto para o caso de tu não o fazeres. (Sei que acabarás por usar da tua tinta, do teu cimento, mas até lá eu empresto-te dos meus. Se bem que mais tarde tenho de te cobrar com juros o uso do material!!!)
 Clamas por compreensão, por entendimento. Não o fazes com som, mas sim com o teu espírito, por isso e só por isso os outros não imaginam que neste momento não deviam contribuir ainda mais para o teu desgosto. Clamas por esperança, enquanto os pilhantes, os que te querem transformar o espírito numa pústula, tapam os ouvidos, ou sofrem de surdez e cegueira crónica e simplesmente parecem ignorar a tua dor .
Omites a lamúria, a dor, a tristeza, o desconsolo, a saudade, que não te deixa adormecer e enfrentas as querelas desses que te acompanham no dia-a-dia. Ninguém parece entender que te sentes mais frágil que noutro momento qualquer, nem assim são menos vorazes. Nem assim evitam ressequir-te mais . Mas não é desses que reza este momento. Mas sim daqueles que estão dispostos a gostar de ti pelo que és e te estendem a mão com carinho.
Sei que acabarás por escapar incólume, embora hoje te pareça que tal é improvável, já que agora tentam enredar-te com aquilo que opinam, com os seus olhares, com os seus ditos.
Além da resignação, tens o teu espírito grandioso, tens a coragem e isso jamais os outros podem profender!

Be A. - Isabel M.P.F.

Brincos-de-princesa

Hoje… Hoje passo a ferro com um afago com mais vigor ainda todos os teus vincos, esses que nestes últimos tempos foste acumulando. Enquanto redobro o carinho, vou relembrando que não te falta mérito no teu espírito e que todas essas perturbações irão passar.
Quero que saibas que não sou adepta da totalidade de dogmas, aliás se fosse dada a utopias escreveria que não pratico mentalmente nenhum dogma, mas isso seria enganar-te e tentar enganar-me. Não preciso de o fazer.
Sim, pratico algumas verdades absolutas, uma delas é a certeza que a esperança acaba sempre por reaparecer. Outra é que por maior que seja o acidente e por mais marcas que deixe a nossa resiliência acaba sempre por os superar.
Alegra-me que comeces por fim a tentar despir esse suplício que não tem nenhuma serventia para ti e que te abafa os sentidos e a vontade. Pode ser que desta vez, consigas ver o quanto de resplandecente existe ao teu redor e no teu espírito, mesmo quando atravessas momentos negativos, mesmo quando te submetes e te ofereces e oferecem, em sacrifício.
Não vamos dar hoje nomes vulgares com profusão a tudo o que de complicado tens passado, a tudo o que tem provocado esses teus tremores de essência. Não. Hoje eu escolho que vou vociferar:
-- Tenho terror mórbido a tudo o que pode provocar coerção no meu universo.A tudo o que pode lesar e provocar-me dano.
Podes escolher ficar em silêncio, gritares ou simplesmente ficares a ver, existe mais algumas opções e todas são viáveis, só tens de escolher a que é mais apropriada para ti. (Digo-te já que estas palavras em voz alta soam um pouco estranhas, no entanto se tenho necessidade de as dizer, quem me pode impedir além de mim mesma?)
Não existo para posar para os outros, aliás palpita-me que deve ser terrível passar horas imóvel, se tiver que ser o modelo de alguém escolho ser o meu próprio. Os outros vão sempre pintar-te, a escolha das cores com que o fazem isso não podes controlar, mas se resolveres posar que seja par te pintares a ti mesma e sejas tu a usar o pincel nos teus quadros. Acredito que no meio das pinturas que faças ,apareça o que de abundante existe em ti e que teimas em não ver. Verás que nas tuas pinturas existe um equilíbrio que se manterá mesmo nos momentos mais alvoraçados. (Se eu em vez de ser tua mãe, ou melhor ainda, se além disso fosse Einsteiniano, devia conseguir desenvolver uma teoria que explicasse estes momentos, mas não sou. Por isso esquece a parte das teorias! Não as tenho, assim como não tenho crispação para te ofertar. No entanto sentimentos esses não me faltam e estão sempre presentes.)
Um dia destes peço-te que enxotes comigo todas as anátemas que te rodeiam e que são inconfessáveis. Mas se o fizer será quando sentires o aroma intensificado de novas fragrâncias no ar, porque hoje só tenho a pretensão de ver um sorriso vernar na tua essência.
Vou colher brincos-de-princesa para te ofertar, enquanto isso passo a mão na rosa-dos-ventos invisível que tens gravada na pele. Se novamente acontecer sentires que estás perdida podes tactear na tua pele e descobrirás todos os pontos cardeais. Não acreditas? Pois afirmo, que além de estarem na tua pele, também estão tacteados no teu espírito. (Mais um dogma! Se o tiver de o explicar então a afirmação deve-se a ter acompanhado o teu crescimento. - O que disse foi uma conclusão verídica e já verificável anteriormente.) Mesmo que os ventos mudem, mesmo assim tens traços já em ti que não permitirão que fiques perdida por muito tempo, nem que sintas desamparo. Mesmo que os obstáculos se multipliquem, mesmo que por vezes pareças estar perante um ninho de vespas, mesmo assim terás clareza para te conseguir guiar até outro caminho.

Château II

Depois de ter despertado, resolvi que ainda não era o momento certo de 
acordar-te e assim aguardei que a tua vista se abrisse, nesses 
entrementes, fui recapitulando umas das tuas últimas frases a meio da 
nossa visita ao teu palácio:
“- Ouves-me, mas não me escutas!”
“- Estou a pensar colocar uma mochila às costas e zarpar.”
Ressoaram por estes dias, pedindo-me compreensão e informaram-me que 
nem sempre faço o que consideras ser o melhor, o que aceito e 
respeito, mas gostaria que soubesses que faço o melhor que consigo 
fazer. Acima de tudo quero que saibas que seja qual for a tua decisão, 
podes sempre contar com o meu apoio.
Espreguiças-te e o carinho que sinto por ti, afaga-te numa carícia 
invisível. Murmuras um bom dia e preocupas-te com o tempo que 
estiveste a dormir.,- o teu sarcasmo já nos viu e penso que não teremos 
como lhe escapar a menos que despertes de vez e te ergas. Recorres ao 
sarcasmo como forma de salvaguardares o teu universo e de tornares os 
receios mudos e a tua graciosidade parece recolher-se ao isolamento.
Criaste fossos para te proteger, criastes valas por achares que 
carecias delas para que ninguém invadisse o teu reino. - Acredito até que 
terás até um ou outro animal esfaimado se alguém se atrever a tentar 
conhecer o teu interior. - Passamos por mais um fosso.
- Cuidado! Não te aproximes tanto da beira! - puxo-te carinhosamente 
por o braço e penso que seria gratificante ver estes espaços tornados 
piscinas onde te visse a banhar-te em harmonia e tranquilidade.
Deixamos o silêncio sepulcral para trás e continuemos agora ali por 
aquele atalho que vai dar à tua habitação. - É imenso este local…Será o 
espaço onde não colocas expectativas nos outros e os tentas entender e 
tentas plantar exaustivamente o auto conhecimento? Ou o espaço onde 
permites continuar sem que o teu passado continue a projectar-se no 
teu presente? Pode ser o espaço que confina com o fim da tua 
herdade…Não sei. Meneio a cabeça, pois sei que aqui pode vir a ser 
mais um espaço resplandecente, mas tudo dependente de ti. Aliás toda 
esta viagem que estamos agora a fazer só é possível porque já a 
fizeste. E eu que te acompanhei até aqui, apreciei cada etapa, mesmo 
aquelas que foram mais complicadas para ti e ainda aquelas que 
provocaram atrito entre ambas, mesmo essas recordo com carinho. Não 
tiro fotografias no entanto tenho um álbum mental repleto de 
fotografias de quem mais amo.
Ali ao fundo perto da casa está um precipício, mas ao lado mesmo junto 
à segunda janela está uma porta onde reinventaste a esperança, não 
vamos hoje visitar o interior do monumento, vamos só saborear a sua 
graciosidade. Podes observar agora o meu olhar embevecido. Quero que 
saibas que não considero a ternura pieguice. Mas um dia penso que te 
passei esse testemunho. Todos somos mutáveis e sim noutra altura da 
minha vida, era contra demonstrações de afecto, por considerar algo 
privado e íntimo. Hoje provoca-me um sorriso ter um dia pensado assim.
Aceno-te um até já e fico por aqui mais um pouco. Gosto da 
luminosidade deste espaço e da musicalidade que esteve sempre presente 
em toda a visita a este momento. Folgo em não estar a perder a 
faculdade de ouvir-te, mesmo que nem sempre tenha a faculdade, ou 
sensibilidade, para entender correctamente.
- Gosto da tua melodia, miúda.
Podes olhar-me estupefacta, mas oiço a tua música com uma clareza 
indescritível.
Abre a mala que carregas todos os dias. Liberta todas as tuas 
tonalidades e deixa-me um arco-íris, enquanto velo pelos teus eclipses.
 Até já.

Be A. - Isabel M. P.F.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Carta III

Fizeste incursões na despedida ao longo destas semanas, mas uns
tentáculos que desconheço iam puxando-te de volta. Ias sofrendo
frémitos e eu via-te estremecer.
Queres acabar com um sentimento que chegou e só te provocou essa
tristeza que até para ti é incompreensível. A desilusão engasgou-te de
tal forma que agora temes voltar a falar. Não estás belfa, meu amor.
Não sabes ainda mas o nosso espírito trata a resiliência por tu.
Perdeste a cadência e descobriste a decadência de uma relação que gostarias
que fosse diferente. Vi-te petrificada nessa pausa irrespirável...
Recalcaste o mesmo pensamento dias a fio, mas agora, por fim, já
existe em ti uma tentativa desesperada de desprender-te. Já se nota a
vontade que tens de não voltar a agonizar. Um novo fôlego chegará,
quando conseguires repousar as tuas dores.
Convido-te agora para uma valsa. Anda, vamos bailar algures entre o
que escreves e o que escrevo, entre o que pensas e o que penso,
enquanto rodopiamos, aguardo que floresça no teu espírito o
entendimento do que sentiste. Uma candeia que ainda não descobriste
possuir está agora a iluminar esse momento doloroso que estás a passar
e não voltarás a estar no breu.
Anda, baila comigo. Continuemos a dançar até chegarmos ao recôndito
onde ainda consegues saborear o teu valor ilimitado e onde não sentes
receio de te teres tornado belfa por teres tido um desgosto. Não tens
motivos para sentir vertigens, a tua convicção em quem eras, em quem
és, nunca te abandonou.
Anda, meu amor, baila comigo.

Be A. - Isabel M.P.F.

Carta II

A tormenta que chegou ao teu reino, não se compadece de ti e desemboca
directamente sobre a tua esperança.
Vejo-te na amurada à mercê dos teus algozes mentais, a tua figura
recorta-se da escuridão em que te envolveste. Evito a profusão de
frases que tenho para te ofertar, receio tirar o alento que te resta,
a claridade no raciocínio é o que ainda ilumina o teu universo e por
isso consigo ver-te como se estivesse ao teu lado.
Gostaria de resgatar-te do que consideras irremediável, das dores
emocionais que padeces e de tudo o que teima em subjugar-te, mas não o
faço, porque tal não é possível. E só por isso resguardo-me no silêncio.
Entre nós voga a resignação, mas mantenho a minha serenidade, sei
que o lusco-fusco não durará eternamente e que um dia destes não
estarás tão esmorecida como hoje. Não posso apelar,recorrer, ou
resolver o problema dessa tua equação que agora parece ser de
resolução impossível, cabe-te descobrir que essa equação a que dei o
cognome de corrente de ar acabará por ficar por se tornar numa brisa
cálida e hoje o caminho que parece tão sinuoso, acabará por se alterar
seja noutro caminho, atalho ou num novo prólogo para ti. Até lá este
será o  nosso espaço. Meu, teu, nosso.

Carta I

Continuas exactamente onde estavas, mas já fitas o que te rodeia. Ao
longe vislumbras dedos que se apontam, olhares que se acusam. Matutas
sobre o assunto e sentes alguma aversão a tanto apontamento. Excluis
da face o que pode ser indicador do que sentes. Sabes bem o que não
queres e para ti é inconcebível que os outros notem o quanto o teu
espírito é sensível e pode ser magoado. Também por uma questão de
orgulho, afinal nada modifica os outros saberem ou não como te sentes.
Estás vestida a rigor com a situação que enfrentas e ninguém parece
notar a desilusão, a mágoa, a tristeza que está alojada no teu olhar.
-É do foro privado! - murmuras ao temporal que te envolve e a tua voz
chega até mim, mesmo a muitos quilómetros de distância.
E sim, meu amor, concordo contigo, aliás com todos os que colocam com
mestria a máscara. Sempre me pareceu existir algo de artístico nisso
de aparecer mascarado, afinal o ser humano quer-se vestido e com ar
decoroso e não desnudado. Não sei se a humanidade seria melhor,
semelhante, ou pior do que é, mas seria certamente mais bondosa com o
seu próprio universo pessoal, se em vez de simular, fingir ou ocultar,
desse por vezes algumas benesses ao espírito e menos importância ao
que os outros podem pensar.
Achamos que nos devemos defender, (Não sei como nos pode ocorrer tais
iniquidades, quando o nosso universo se encontra em risco de um
colapso, se existe algo que devemos defender é a nossa estabilidade
emocional.) O que sentimos não nos modifica, o nosso pensamento não se
torna mais límpido e em vez de procurar entender o que nos está a
incomodar, resolvemos que temos é de ter cuidado para que ninguém se
aperceba da nossa realidade que continua impiedosamente a ferir-nos.
No entanto a comiseração alheia não será nunca uma realidade para nós,
os fingidores. Valha-nos isso!
Folgo que assim o seja, afinal também não a suporto, mas acima de isso
tudo, está o meu espírito e tento com afinco ser verdadeira comigo
mesma sem me preocupar com aquilo que os outros possam pensar. O que
pensam não pode nunca ser mais importante do que a nossa estabilidade
e bem estar mental.
Neste ínterim não nos lembramos de nos congratularmos por sermos quem
somos, muitas vezes preferimos embarcar num esforço titânico que não
nos permita é reflectir. É invariavelmente aqui que a melancolia
avança e como não é mensurável a mais ninguém e não encontramos forma
de a combater, ganha terreno e mais terreno e ainda mais terreno até a
sentirmos incrustada no nosso interior.
Aceno-te enquanto te afago com o meu carinho. Excluis da face o que
te magoa, quando não sabes ao certo o que é. É árduo desmentires as
tuas dores, especialmente porque não são localizáveis, nem procuraste
ainda entender o que realmente te está a provocar tanto desconforto.
Anda, permite-me aqui e agora que te convide para dares uma folga à
tua essência. - Eu aproveito e farei o mesmo.

Be A - Isabel M.P.F.

Château


Ontem depois de descer no elevador e deixar-te a ti no teu quarto de
estudante onde abundam o que são alguns dos teus espólios do passado,
resolvi que estava na altura de convidar-te para uma excursão ás
memórias que tenho. Vamos visitar o que presenciei. Esta será uma
daquelas visitas onde vamos conhecer o teu Château - mas a cicerone serei eu -
que nunca esteve em ruínas, mas já sentiu os efeitos das intempéries e
do desgaste e nas paredes. Pode ver-se alguns riscos, invisíveis no
entanto a um olhar menos cuidadoso.
Anda, vamos passear por a fase onde tudo te parecia fugaz e outras
onde parecias estar a sofrer de um encantamento. Estás a ver ali à
frente naquela janela, foi ali que te vi a andares às apalpadelas, a
continuares mesmo quando te parecia difícil andares, quando nem um
vislumbre da trilha a seguir conseguias vislumbrar.
Agora já existem vários caminhos de acesso à tua identidade pessoal.
 Estão limpos, sem ervas nocivas. Foi onde mais tempo passaste a desbravar a tua consciência.
 Estão a tornar-se em caminhos com aparência de jardim e o perfume
sem que o saibas anda a afaga-nos o rosto.
Ali; (Vou apontar, embora acredite no adágio: Não se aponta que é
feio.) Ergo a mão no ar e segue agora a direcção que o meu dedo
indica.- Sim. Aí mesmo. Estás a ver algumas marcas nas paredes? Foram
de momentos em que sentiste exaltação. Vamos aproximar-nos para ver que marca
é aquela que parece cinzelada. - Já me recordo. Foi quando descobriste
que existiam precipícios, fosse no teu universo, fosse no que te
rodeia. Descobriste na mesma altura que podes fustigar-te e que também
os outros podem fazer o mesmo.
Repara agora nestes vidros coloridos por onde vamos passar. Atenta,
não os quebres. Eles contam a história de como conseguiram
arrebatar-te. Julgaste que eram pedras preciosas formadas de carbono
puro, no entanto eles sempre foram o mesmo, só que insististe ver
aquilo que não estava lá. Era possível este corpo sólido transparente
vir a ser um diamante, mas julgo que isso teria de partir deles e não
de ti.
Algumas lágrimas de desilusão ainda os estão a orvalhar, eles
próprios devem lacrimejar, porque não gostaste verdadeiramente deles,
mas da imagem que acarinhaste no teu pensamento.
Agora cuidado, não escorregues, no entanto se conseguires peço que
aprecies o que a sofreguidão, a maldade, a injustiça alheia e tudo o
que te pareceu negativo provocou nesta parte do terreno, foi aqui
precisamente que deste conta da tua vulnerabilidade. - Parece ocupar
mais espaço do que a última vez que o visitei. Estava a esquecer-me
que foi aqui que descobriste o que acarreta não ter receio de
expor-te à ternura. Alargaste as tuas defesas, por isso a vala está
mais larga. Foi perto deste sítio que acompanhei a tua evasão à
realidade até regurgitares aqui toda a mágoa que sentias e tremula
procurares o meu abraço até os soluços se dissiparem e dormitares
agitadamente. Os teus primeiros eclipses…
É tarde… Este é um local tão bom como outro qualquer para descansar.
Não existem espectros a assombrá-lo, ou se existem não os temo. Vou
recostar-me nesta almofada de emoções e sentimento que rodeia este
silêncio sepulcral e amanhã continuo o passeio. Podes deitar-te em
qualquer destes lugares que ficam no teu interior o carinho vai velar
por ambas.
Uma noite descansada, minha filha. Até amanhã.

Be A. - Isabel M.P.F.

Pedra dos Ventos

A sublimação da sensibilidade espalhada pelo jardim.
Por razões não meramente sentimentais
A Pedra dos Ventos é um dos meus eleitos locais.
Passeio vagarosamente ao logo do varandim.

Será assim o paraíso? Com diferentes patamares,
uma vista para o Mondego e para a cidade?
A beleza da vegetação cede-nos prazeres
e transporta-nos até à imortalidade.

No meio deste sossego, vejo ao longe enamorados.
Passa um bando de pintassilgos em esquadrão.
À minha frente poisa um tentilhão
no promontório rochoso dos abençoados.

Sento-me num banco mais difícil de localizar.
Sou uma coisa imaginada, aqui real.
Contemplo todo este manancial
espaço bucólico onde a essência posso desnudar.

Resfolgo o ar deste jardim sem virtuais.
Ao meu lado a banda e a fanfarra do meu cansaço
que trago presa aos marsupiais.
Neste espaço não lhes dou o braço.

Área vasta onde me posso extrapolar,
a seiva criativa toma a dianteira
da ulterior congestão insular.
Sem esta barreia, sinto-me inteira.

Be A.- Isabel M.P.F.

Mais ou menos isto

Tudo em meu redor se começa a decompor.
O que outrora era delicado,por estar disfarçado,
agora não passa de deslouvor.
Já não passa de saudade!
Já em mim não existem ânsias de a deslindar.
Há pouco larguei este andor.
Olho em redor, tudo me soa semelhante.
Recuso-me a avançar.
“Avante, avante!”Papagueia a minha voz dormente
enquanto o espírito não o consente.
Se não és mais que o além.Se hoje não és mais que isto…
Nunca o que havia previsto.
Não passas de mais uma miragem.
Um tormento meu sem bafagem!
Cheguei a este alcandor onde me alheio a levitar.
Tanto bolor, tanto ao nosso redor.
Sigo agora a balbuciar...
O trilho que traçamos, tornou-me nisto.
Mais ou menos anacoreta.
 Mais ou menos isto.
Mais ou menos encoberta...
O que trilho que traçamos, tornou-nos nisto...
Mais ou menos coisa alguma de nada!
Continuamente iludida...Continuamente na órbita…
A preferir ser mais ou menos eremita.
Mais ou menos coisa alguma de nada.
Antes de alguém me esmechar, algures já estive abrasada.
Já construí pontes do nada.Já tive mérito por abandalhar.
Já fui zagal da minha biografia. Já vivi na redundância…
Já me arquitectei. Já tive de me açaimar.
Algures já fui dissemelhante.
Trauteava desde óperas a baladas.
Já tive o toque de Midas
.Já me chamaram abundante.
Já fui Afrodite antes de ser Medusa.
Já desabrochei sem ter como o fazer.
Já vivi num paço antes de me tornar obtusa.
Já latejou em mim o ser.
Algures, onde retirei a máscara à dor.
 Onde o fiz sem pudor.
Algures fui assim e ainda mais do que assim.
Algures… Algures neste confim.
O trilho traçado tornou-me nisto.
Mais ou menos anacoreta. 
Mais ou menos isto.Mais ou menos encoberta...
O que trilho que traçaste, tornou-nos nisto...
Mais ou menos coisa alguma de nada.
Continuamente subjugada.
Continuamente por ti preocupada.
Conquistei este estar nunca planeado.
O trilho que traçaste, e tracei, tornou-me nisto...
Este ser atroçoado. Ressequido. Mirrado.
Espírito repatriado. Desvinculado!
Foi nisto que nos tornaste. Foi nisto que me tornei.
Estou esvaziada.Completamente alabregada
.O que pensas? Já nem sei.
Para ti não passo de objecto pelúcido...
O meu ser é agora translúcido!
Só quando te tirei a máscara,
o vestígio do que foste para mim... me ampara.
Nem já comungo a vontade de me alçar e de em algures me procurar.
Algures… Fica também aqui no alcandor.
Onde habito agora para sempre empedernecida,mumificada,
rodeada de papelada.
 Sem animação! 
Sem ter como me opor. - A tanta saudade.
A construir menos que nada.
Aqui no alcandor… onde me visto
.Algures… Algures numa aragem incerta.
O trilho que tracei e traçamos... tornou-me nisto.
Mais ou menos anacoreta. Mais ou menos coisa alguma de nada.
Continuamente contigo preocupada.
O trilho que traçaste, tornou-nos nisto...
Algures, algures… Coisa alguma de nada.

Be A. - Isabel M.P.F.

Livro aberto

Coloco-te no frontispício do nosso livro aberto,
As nossas passagens, o nosso enxerto,
As nossas paisagens mutáveis,
 O nosso crescimento.
Os nossos espíritos ao sabor do momento
.Desfolho vagarosamente os nossos trechos,
Eternizados neste álbum que preservo na lembrança.
Repouso o olhar no teu minúsculo berço.
Depois no andarilho, mais tarde no baloiço.
A primeira música, a primeira dança.
A primeira comunhão, o teu terço
.O primeiro namorado, a primeira dor de um soluço
.O primeiro vestido de noite.
As primeiras palavras que não oiço.
As duas corcovas dorsais de celulite
 que descubro no meu pensamento.
Continuo a folhear-nos...
 A folhear o nosso amadurecimento…

Be A - Isabel M. P. F.

Átomo com ferrolhos

Tiro várias fotografias
nestas dicotomias.
O meu espírito é maniento…
Julga-se autónomo.
Leio mais uma vez o regulamento.
Em lugar algum diz que sou um átomo…
Um átomo do que penso,
um átomo com ferrolhos!
Fechei todas as entradas…
Fechei todas as saídas.
Fechei-as com ferrolhos!
E o meu espírito que se julga autónomo
não passa de um átomo
daquilo que penso...
A opção certa é aquela que não tomo.
A que não escolho.
Se fico é porque devia ter ido.
Se me afasto, devia ter ficado!
Se digo a verdade, devia ter mentido!
Se fico em silêncio, devia ter gritado…
Se desisto, devia ter lutado.

Be A. - Isabel M.P.F.

Claustro do silêncio

Na tua fachada mental não faltaram criativos.
Ao contrário da minha construção
onde nunca descortino os estribos.
O meu pensamento nunca me permitiu obnubilação.

Quem me dera a mim
ter baixos relevos
com abundantes cenas de paixão…

Acervo alternativo
enfeitado de emoção
daquilo que exibo.

Quem me dera a mim
ter um riso carmim.
Ser da escrita um benjamim.

Era criança quando aqui andei.
A tua sobriedade suspirou
quando silenciosamente me afastei…

Um temporal soçobrou
o olhar da minha saudosa mãe.
(A saudade que sinto de ti é infinita.)

Recordo-me da última visita
em que estavas viva.
Tinhas sempre uma receita:
“Que ninguém nunca te iniba.”

O meu olhar agiganta-se perante
a lembrança de ti meu Arco Triunfal.
Na minha memória, neste escrito vives eternamente…

Minha cidade satélite…
Meu panteão memorial.
A Cidade-satélite deste Panteão Nacional.

Be A. - Isabel M.P.F.

Portas



Descerro a porta das ilusões,
cerrando a porta da realidade…
Emudecendo todos as deplorações
Que alforriei nesta minha herdade,
antes que o meu espírito se embrume
na lodosa inquietude que ao longe gesticula
envolta no teu apartado perfume…
Que alforriei nesta minha herdade...
Nascido nas vísceras da cauda de um cometa
atado à minha saudade.
Emudeço os lamentos na mansidão do olhar ardente
de uma lembrança inconsequente,
que verna no leito do teus lábios,
no leito do teu ventre.
No cântico brando…
No vestígio longínquo
a morar as recordações de uma metade…
De uma metade ausente.

Be A.- Isabel M.P.F.

Contracapa

Carrego este fardo como se fosse uma colcha
que, mesmo em pleno estio, não sei como arrumar.
Nem no Inverno me tem serventia, a brecha
no espírito não existe como a calafetar.

Além do fardo, carrego um alarme quesito
a tilintar sempre que alguém se abeira.
Cumpro penitência em gesto contrito.
Mescla de invisibilidades da minha cegueira.

Não sei qual de nós está mais desfeita,
se eu ou o fardo, ou a farda que uso a eito.
Aquilo que penso e aquilo que sou
em sincronia, em identidade estreita.

Bruxuleante é a hipérbole onde estou.
Entre mim desfiada e a manta desfeita.
O travo faz parte de mim, enquanto manto,
e do trapo em musicado pranto…

Partilhamos o mesmo universo, a mesma aerosfera.
Uma azinhaga policópia no fim da quimera.
Um dia farei uma excisão…
Quando essa sobremanhã chegar
Espraiar-se-á a conclusão.
E eu não terei mais de adejar
em meditações incoerentes.
Espraiar-se-á a conclusão:
Seremos coisas diferentes
Não serei mais essa coisa.
Teremos diferentes visuais.
Seremos a mesma coisa
mesmo sendo coisas desiguais.
Até lá, continuo inanimada.
O ser e não ser num único trilho.
Recomponho-te, embrulhando-me mais.
Continuo… Com o meu espartilho…
Só a contracapa conta os meus Ais.

Be A. - Isabel M.P.F.

Tantas


Existem tantas coisas que não sei fazer…
Dou por mim a descobrir sítios onde não fui, passos que escolhi não dar.
Ruas que nunca visitei com receio de me perder.
Encruzilhadas que optei por nunca visitar.
Tudo o que era arriscado era logo descartado.
Desconheces que o caminho que escolhi nunca foi sinuoso.
Desconheces também que nunca foi voluptuoso.
No que era libidinoso usaram ou usei um cajado!
Dou por mim a questionar-me como vim parar a este atalho.
Descubro a infame saudade neste traçado.

Be A. . Isabel M.P.F.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Insensata

Tenho sido insensata.
Tenho passado a vida a tratar
a felicidade como concreta
e não como abstracta.

Um estar que me arrebata.
Significância a desfrutar.
Coloquei uma etiqueta
na minha existência compacta.

Quando inscrevi a alegria
nesta superfície nívea
julguei que duraria.
Coloquei-a na gávea.

Resguardada da tirania
que o amanhã me oferte.
Tenho na mão este passaporte.
Hesito entre ir para sul ou norte.

O insepulto tirânico azar
fez questão de me visitar.
Nem cinco minutos passaram
e da felicidade já me usurparam.
Fico apeada.
A felicidade foi raptada
ou partiu sem ser detectada.

Nem sul, centro ou norte
O meu contentamento fez um recorte.
entrou num qualquer transporte.

Já não há nada que me conforte.
Fico na periferia sombria
deste escrito-memória
demolida sem transporte

Be A.- Isabel M.P.F.




Solto os timões

Arquivo o espírito num ponto esconso.
Torno-me numa hulha ao acaso…
a gerar energia de seguida.
Parte de mim sempre foi a Antárctida.
Ponto equidistante da minha verdade.
 Readapto-me, simulando outra realidade.~
 Símbolos ecdémicos aparecem além.
Sou parcialmente alguém,ou parte de algo que se prendeu postiço
.Partidária do unanimismo… o que cobiço?
Todo o meu estar se torna anémico.
Os outros, os acrónicos, os artísticos.
Sempre astros, sempre diferentes.
Antidogmáticos. Filosóficos. Poéticos.
Ora planetas, ora astros… E eu isto.
Sempre no mesmo registo.
Jamais eloquente, sempre imanente.
Alguém que simula um ânimo que não sente.
Camuflo a minha calvície.
Espremo os limões…Defraudo-me de mim.
 Tudo o mais é agreste.Vou até ao limítrofe…
Solto os timões…Difícil de desembaralhar o este do sudeste.
De uma forma sub-reptícia sou eu.
 Com menor ou maior claridade.
Almejo atingir o apogeu.
Almejo a graciosidade e só me chega a futilidade.
Mais e mais… Sempre esta inocuidade.
Coloco metade de metade do que penso na minha caranguejola.
Nem sempre sou só isto ou aquilo.
Nem sempre espírito intranquilo na areia,
 a querer mover a barcarola.
São legítimas as divisões que oculto.
Nem sei se alguma me provoca tumulto.
O meu sótão ou a cave onde me resguardo sem telecomando.
 Aqui existir é brando.
Os algozes com esputação maligna mortificam os que são só humanos.
Abro a porta de outra divisão.Deito-me aí a delirar.

Be A.- Isabel M.P.F.

Sempre o mesmo circuito

Hospedo esta mágoa rochosa.
Declino o jardim de violetas.
Mantenho os espinhos e a rosa
desalinhada, sem trunfos nem metas.
Ah, flor delicada em forma de glosa!

Ainda assim um espinho em prosa
assimilada pela inflorescência da difracção.
Extraio náuseas da minha raiz.
Náuseas lajeadas pela minha matriz.
Guardo-me aqui, no local mais afastado da acção.

Tenho vivido assim a fustigar-me
Ora transeunte, ora campanudo
Verbo transitivo ou pronome.
Verbalizo o pensamento mudo.
Tenho vivido assim. 
Sempre assim.
Como se fosse um entretenimento.
Nunca possuo trunfos… Nada tem fim.
Transporto-me do alheamento
para o apodrecimento da estagnação
As cartas que me dou e me dão…
Nunca me permitem ir além de assistir.
Persisto, sem nunca um som chegar a emitir.

Aceito o pouco que tenho, o pouco que sou,
o pouco que vivo. Daqui para onde vou?
A prelevar-me as vigas da minha estabilidade
Abalroa-me a dor da minha continuidade.
E continuo sempre…Obstinadamente.
Ajusto-me aos campos de urtigas,
içando-me numa qualquer profecia.

E tu, pouco, que nunca te cansas,
nunca cedes lugar ao muito…
Sempre o mesmo pouco.
Sempre o mesmo circuito…
Sempre no mesmo calabouço
daquilo que consinto.

Disseco as minhas escolhas…
Uma vida de acrobacias.
Coníferas folhas
de estoicismo, de luta contra as falácias
em eternas resistências.

Tudo o que tenho, está comigo
O meu melhor amigo….
O meu entendimento!
A minha existência é por vezes este tormento.

Coloco este e outro pensamento
para trás das costas e atiro o baralho…
Neste ajuntamento desordenado.
Falta-me a pujança de outras camadas.
Quem me dera ser como um qualquer bandalho
Que gargalha do que não sente.

Be A.- Isabel M.P.F.

Deserto glaciar

Na irrepresentabilidade artística
antecipo as lágrimas.
A realidade impõe-se plástica.
Verto-me num papel.
Coberta de lástimas.
Olimpiana presa a um cordel.

Nesta dimensão choramingo.
Raivosamente digo e desdigo.
Choro com a bravura da subjectividade,
Proposição analítica da minha identidade.
No real adopto a impessoalidade.

Finjo que nada me pode lacerar.
Reproduzo-me em conversas. 
Alguém as quis encetar. 
Processo cirúrgico com pinças
entre mim real e mim surreal.
O drama interior é um total
ausente de outro espaço que não este.

O enclave da escrita

onde o meu ser se reveste.
Novelo oculto de uma eremita.

Repouso num escrito com autenticidade.

Comunico com toda a humanidade
dramas reconhecidos como meus,
mas também reclamados por fariseus.

Os meus dramas,

mesmo que dramas diferentes,
na essência continuam a ser dramas.
Dramas reais com as minhas patentes.

Escritos da minha essência desassossegada.

O pensamento a chocalhar-me aos ouvidos.
No interior deste desértico glaciar, estirada
faço o inventário do que penso e observo.
A espessura do frio penetra aparentes despercebidos,
mostrando-me como penso, no meu acervo.

Be A.- Isabel M.P.F.

Coto de um fragmento

Por efeito das experiências que vivenciámos.
Já fomos muitas coisas antes de ser isto.
Antes da aculturação, antes da socialização.
Antes dos rituais de saudação, antes das ideologias.
Antes dos modelos, normas e teorias.
Antes de sermos esta construção,
Já fomos um embrião antes de ser uma criança.
Já fomos adolescentes antes de sermos crescidos.
Somos isto, mas já fomos aquilo,
Somos isto, ainda em evolução.~
Somos a unicidade do nosso ponto de vista
 que não germinou de geração espontânea.
Que é rebento das experiências que tivemos.
Dos significados que lhe demos.
Sei o que habita aí de forma latente.
Por isso não, não te questiono se o que pensas é a tua totalidade
ou só um mero coto de um fragmento.

Be A.- Isabel M.P.F.

Selados

Avanço para o meu interior com passos indolentes.
Chegaram antes de mim estes novos recipientes…
Talvez por isso não me pareçam ser tão usurpadores.
Estão encavalados ao acaso, nos meus bastidores.
Nos caixotes da minha memória residem aí aos milhares…
Desde alegrias, emoções, sensações e até pesares.
As memórias encaixotadas a quadruplicar...~
E assim pretendo que fiquem, pois não fazia tenção de as descerrar.
Estavam anteriormente todos selados.
Menos um, que agora está esventrado.
 É uma exposição privada, com as vísceras do meu passado.
 Momentos sobrepostos espargidos
 pelo chão do que fui armazenando.
Aqui conciliados numa estranha geometria.
 Escapou deles um fragmento de memória...
Aproximo-me das janelas com portadas de madeira,
 Dou por mim a mirar a maviosa ria.

Be A.- Isabel M.P.F.