segunda-feira, 6 de julho de 2015

Ilhéu

Tenho um secadoiro de ápices que não consenti.
Lavo-os em dias como este e deixo que enxuguem ao ar.
Seguro-os com molas, para não me descurar.
Para nunca me esquecer…
Do que não escolhi – Do que não senti.
Do que não tive- do que nunca vou ter.
São um exército desalinhado a abanarem-se na corda.
Rejeitados! – Colocados na borda!
Revestida de uma concha sem reverso
Sempre a afastar-me das balbúrdias…
Sou nociva todos os meses. – Todos os dias!
Sou nociva comigo e com o que quero para mim!
Sou nociva mas como não sou comestível,
não leso ninguém quando declino o impensável.
 Atirai-me água benta enquanto faço mais um motim!
Sou retráctil no que pondero!
Deslizo pela nostalgia de um erro
 que tomo como se fosse meu
 e na minha pele aparecem rotas, caminhos,
 pontos, vírgulas e torno-me volátil.
 Deixo o cenotáfio, preciso regressar ao meu ilhéu!
Derrubo o secadoiro. – Os espíritos como o meu querem-se sozinhos.
 Entro na saliência de uma casca de uma árvore versátil
 que torno na quilha de um navio que ninguém irá ver partir.
Ao largo vejo os destroços que deixo e levo comigo.
 arremesso contra a maré o temor mórbido – deixo-me ir,
 Monto numa palavra evasiva,
 dou ambrosia ao meu espírito que mais ninguém irá conhecer
e torno-me imortal num texto que nunca ninguém conseguiu ler…
Encerro-me por fim numa cápsula ou ogiva…
Que enterro no meu ilhéu.



Isabel M.P.F.-BeA

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