terça-feira, 7 de julho de 2015

Faz-de-conta

Faz-de-conta


Nessa vida que parecia faz-de-conta,
rosca curva sem ponta
que nunca tocou o céu
onde fiz de conta que era eu.
Que era assim. Ou nem assim o era.
Onde fiz de conta, do que não era.

Hialino partido a retractar o céu
onde fui um crescendo de acordes desafinados
em ensaios e livros desossados.
Todos os meus cognomes controlados.
Onde fiz de conta que era eu.
Que era assim. Ou nem assim o era.
Onde fiz de conta do que não era.

Nessa vida que sempre me pareceu irreal
e era a única realidade que reconhecia como minha.
Candente co-herdada com a real.
Hidra que não me convence.
Tudo irreal o que tinha!
Uma realidade que agora nos pertence.

Que vamos criando diferente da anterior,
que sempre me soou irreal… E nunca foi superior.
O meu número composto todo ele ajaulado.
E era a única realidade que tinha experimentado.

Diferente do real que agora vivemos.
Nessa vida que parecia faz-de-conta.
Rosca curva sem ponta!
Onde fiz de conta que era eu.
Que era assim. Ou nem assim o era.
Onde fiz de conta, do que não era.

Não vos quero numa vida faz-de-conta.
Quero-vos nesta realidade instantânea.             
Nesta que todas vamos esgravatando,
mesmo que não passe de uma miscelânea.

Entre a utopia que incendeiam e a que criam
e aquilo que vamos conseguindo amealhar
para subsistir. Para estar e aquela onde nos queriam.
Os monopolistas nunca se chegam a dissipar.


Não consigo sequer conceber esta realidade
que agora reconheço como minha.
- Foi dali que provim.
E acreditei que me convinha…
Seja a vossa presença apartada de mim.
A minha genuinidade repleta de fragilidade.
Recuso-me a não-existir!
A tal consentir.

Nessa vida faz-de-conta
onde fiz de conta que era eu.
Que era assim. Ou nem assim o era.
Onde fiz de conta, do que não era.
Preciso ser objectiva!
Quero estar viva,
sem ter de fazer-de-conta
que sou o que não sou.
Rosca curva sem ponta,
A desconhecer para onde vamos.
Para onde vou.
Nesta realidade onde agora estamos.


Só aspiro à realidade onde estão presentes,
mas ausentes da manipulação. Conscientes.
Do faz-de-conta..
Não quero, não posso sequer imaginar
seja o irreal, ou este real,
ou a realidade faz-de-conta…
que nos venha a dominar.

Sem vós, meus amores. Sem vós, não existe
nenhum tipo de (ir)realidade. Seria abnegar…
Existir assim seria uma não-existência, um nado morto,
uma não realidade, uma não existência. Ponto!

Eu que vos presenteei com o caos. Não porque escolhi assim…
mas sim porque já ali tinha sido obrigada a afundar. Mas sim…
Onde foram obrigados a mergulhar,
numa tentativa heróica de me salvar
desta existência que sempre me pareceu a granel.

Ao meu redor tudo agridoce! – Nunca mel.
Que sempre me pareceu inverosímil. Um covil.
Onde desejo ver despontar uma saída,
Que não seja mais um ardil.

Diferente de viver constantemente
com receio de vos perder numa vida aparente.
Nestes emaranhados de faz-de-conta.
Suprimo agora a adenda desta acta.

Anseio por uma continuação,
diferente do meu passado.
Um presente e futuro de paixão
onde nada seja adaptado,
onde arranjamos espaço para ser.
Um lar que nos vá acolher.

Diferente do que foi o meu lugar.
Um espaço agora para arrendar.
Onde fiz de conta que era eu.
Que era assim. Ou nem assim o era.
Onde fiz de conta, do que não era.

Tenho-vos no meu presente…
Onde é preciso labutar aceridamente
para a calamidade não nos derrotar.


As traças sinistras roeram todos os nossos trajes.
A deterioração é já tão notória…- diferentes de antes.
Como os artifícios que arranjamos para a remendar.
Todos os golpes para nos defendermos são malogrados.
Mas, mesmo assim, estamos juntas, somos afortunadas.
Nessa vida faz-de-conta, onde já estive empregada.
Onde fiz de conta que era eu. Que era assim.- Mas não estava apeada.
Ou nem assim o era. Onde fiz de conta, do que não era.

Nesta vida que existo, estou desempregada.
Onde já sou assim ou nem assim…
Onde as únicas contas que faço são, sim,
as da multiplicação, da soma e da subtracção
(Especialmente da subtracção.)
Onde sou eu. Para trás ficou quem era assim.
Agora a que nem consegue ser empregada de balcão.




Isabel M.P.F - BeA

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