segunda-feira, 8 de junho de 2015

Escritura de repudio


Amanhã quando abrirem os portões daquela multidão de lápides eu tentarei lá estar – A visitar a única multidão silenciosa que conheço. – E aonde dizem que estás a descansar e que a minha irmã também descansa ali. – Como me ensinaste a ser tolerante acato que para os outros é ali que estão. – Que para eles, vocês precisam de uma lápide para estar.
Também lá devem estar estes pêsames – “Esta é a verdade – Partimos todos para outro reino- Não somos nada e nada de nós resta no fim” .
A minha irmã estava agarrada ao meu braço e parecia ainda mais frágil quando estremeceu. Tive de me inclinar e dizer-te ao ouvido - Vês afinal a mãe não faleceu. – Ai que a malandreca afinal foi para outro reino e não nos levou! – Tu limitaste-te a apertar-me mais o braço quando o indivíduo se preparava para pregar mais senso comum.
- Duas irmãs tão diferentes – Uma lavada em lágrimas e a outra…
Nesta altura não sabia ainda que podia repudiar e por isso quis pedir que fosses pregar a verdade noutra paróquia, mas não o fiz. Preferi pensar que é o que me ensinaste mãe que me impediu de tal e não o facto de ser um organismo rudimentar, sem pretensões a mais. – Não fosse o que ensinaste e eu teria tratado como dejecto aquela verdade – Não me tivesse sempre me sentido amada e compreendida o que me cedeu a harmonia psicológica para encarar os momentos que nem sempre são como os que desejava. – Não me tivesses tu ensinado a ser compreensiva e era bem possível que no dia do teu descanso final -como preferem chamar- eu tivesse feito como aquele indivíduo que nos tratou como dejectório da verdade dele. -A tua forma de estar e ser. - A tua compreensão e disponibilidade e tudo o que me proporcionaste… – Até a cumplicidade nos nossos olhares não descansam ali. -Não! – Não é assim o nosso fim! - A nossa forte vivência não descansa ali – Não foi o fim nem para ti, nem para a minha irmã! – Se tiverem que descansar nalgum lado então que seja nas minhas memórias.  

Foi convicta deste pensamento que repudiei, mãe. - Estava a repudiar propriedades e capitais. Nunca repudiarei afectos. Assimetrias – Ou as nossas vivências. – Mas não vá estares mesmo noutro reino e julgares que não entrar no cemitério  é mais um repudio meu – E amanhã tentarei ir lá visitar as vossas lápides.

Isabel M.P.F- Be A

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