Amanhã quando abrirem os portões daquela multidão de lápides
eu tentarei lá estar – A visitar a única multidão silenciosa que conheço. – E aonde
dizem que estás a descansar e que a minha irmã também descansa ali. – Como me
ensinaste a ser tolerante acato que para os outros é ali que estão. – Que para
eles, vocês precisam de uma lápide para estar.
Também lá devem estar estes pêsames – “Esta é a verdade – Partimos todos para outro reino- Não somos nada e nada de nós resta no fim” .
A minha irmã estava agarrada ao meu braço e parecia ainda mais
frágil quando estremeceu. Tive de me inclinar e dizer-te ao ouvido - Vês afinal
a mãe não faleceu. – Ai que a malandreca afinal foi para outro reino e não nos
levou! – Tu limitaste-te a apertar-me mais o braço quando o indivíduo se
preparava para pregar mais senso comum.
- Duas irmãs tão diferentes – Uma lavada em lágrimas e a
outra…
Nesta altura não sabia ainda que podia repudiar e por isso quis
pedir que fosses pregar a verdade noutra paróquia, mas não o fiz.
Preferi pensar que é o que me ensinaste mãe que me impediu de tal e não o facto
de ser um organismo rudimentar, sem pretensões a mais. – Não fosse o que ensinaste
e eu teria tratado como dejecto aquela verdade – Não me tivesse sempre me sentido
amada e compreendida o que me cedeu a harmonia psicológica para encarar os momentos
que nem sempre são como os que desejava. – Não me tivesses tu ensinado a ser
compreensiva e era bem possível que no dia do teu descanso final -como preferem
chamar- eu tivesse feito como aquele indivíduo que nos tratou como dejectório
da verdade dele. -A tua forma de estar e ser. - A tua compreensão e
disponibilidade e tudo o que me proporcionaste… – Até a cumplicidade nos nossos
olhares não descansam ali. -Não! – Não é assim o nosso fim! - A nossa forte
vivência não descansa ali – Não foi o fim nem para ti, nem para a minha irmã! –
Se tiverem que descansar nalgum lado então que seja nas minhas memórias.
Foi convicta deste pensamento que repudiei, mãe. - Estava a
repudiar propriedades e capitais. Nunca repudiarei afectos. Assimetrias – Ou as
nossas vivências. – Mas não vá estares mesmo noutro reino e julgares que não
entrar no cemitério é mais um repudio
meu – E amanhã tentarei ir lá visitar as vossas lápides.
Isabel M.P.F- Be A
Isabel M.P.F- Be A
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