terça-feira, 30 de junho de 2015

Inacessível

Desmancho o novelo, desfio a linha da frivolidade,
torno-me projéctil da inanidade,
Numa trajectória parabólica aonde atinja serenidade!
Olhas para mim com desaprovação.
Recomeço o trecho do fim para outro final.
Enquanto referes como já foi tudo divinal…
Pedes que me pronuncie e não te torne um borrão.
E eu penso em grunhir! Mas nunca grunho!
Como é interior acabas por nem suspeitar
 que tudo o que consegues testemunhar,
não passa sequer de um gatafunho…
Sorrio enquanto me apontas como antidogmática
racional e apodíctica,
que por vezes se torna inacessível
e não participa – Limitando-se a assistir,
isolada na sua própria nirvana.
Se soubesses quanto melancolia consigo sentir
e mesmo que saiba que não é irrevogável,
que mesmo assim nestes momentos é tão soberana,
nunca mais asseverarias com tanta convicção, nada sobre mim!
Foi também isto que ditou o nosso fim.
E sim no passado tivemos direito ao nosso funeral.
O enterro de um conhecimento unilateral…
O enterro do nosso amor.
Aonde sempre afirmaste que te conhecia melhor,
Do que te conhecias a ti mesmo…


Isabel M.P.F - BeA

sábado, 27 de junho de 2015

Se tudo dependesse de ti

Embrulhada num distanciamento nítido,
desci o renque da mesma maneira que o podia ter subido.
 Elegi o mesmo trilho, como podia ter escolhido outro qualquer.
Qualquer dos outros caminhos me leva ao mesmo lugar.
Se tudo dependesse de ti – Não precisaria monologar.
Se tudo dependesse de ti - Não estaria só mas contigo.
Se tudo dependesse de ti -  Não serias só amigo.
Não desceria a rua, que escolho descer.
Esqueceria que já não sinto e continuaria a contigo querer envelhecer.
Se tudo dependesse de ti, não escolheria este carreiro.
Se tudo dependesse  de ti - Enfloraria em mim a vontade de voltar a tentar
Se tudo dependesse de mim – Tu não vestirias a pele de lobo e eu de cordeiro!
A cada passada que damos recordo-me dos liliputianos,
 sinto-me tão exígua que podia ser hoje  o meu apanágio…
Tolhida no que penso. Atolada neste naufrágio.
 Sustenho no ar estes pensamentos, - Tu e os outros são Herculanos!
 Tolhida no que penso. Atolada em mim mesma.
A meio do caminho paras de me apontar como a que se esvai no nevoeiro…
A meio da caminhada voltas a ser prazenteiro.
 Enquanto continuo silenciosamente a desmanchar as pregas,
 Enquanto abro as mãos vazias e esquivo-me das regras.
 Quebro todas as alianças que fiz e faço.
Tiro o pejo ao que não sinto e me lapidifica o ser.
Já foste tudo para mim mas agora já só és amigalhaço.
É quando ficas longânime que uma dor miudinha começa a fluir.
Quando segredas – É contigo que quero envelhecer…

- Porquê? – Porque tinha o meu sentimento de ruir?

Isabel M.P.F - BeA

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Um dia...

Quero alguém que urda um novo tempo…
Que queira tanto estar como vou querer que permaneça.
Que não seja um barranco mas uma fortaleza!
Que não trate o sentimento como passatempo.
Que não use as palavras como uma punição.
Mas sim como a nossa remissão…
Quero adormentar, a cingir o sentimento
de espírito e mãos acasaladas
e despertar ao lado do meu firmamento,
distante dos meus receios e debandadas
aonde não serei água-viva mas inerme ,
a tactear cada milímetro do espírito e epiderme
dessa serra desse mar e desse vale.
Quero alongar o olhar ou as mãos e tocar-te…
Perder-me em ti – Perder-me a contemplar-te.
Quero que comunguemos desde o fundamental ao trivial…
Quero que a aragem me aninhe na tua física molecular
e me deixes palmilhar essa extensão insular.
Um dia…Um dia será assim,
e mesmo que não seja assim,
por ter sido demasiado
resta-me o consolo de o ter pensado.


Isabel M.P.F - BeA

terça-feira, 23 de junho de 2015

Fluido cósmico

Dedilhada pelo desassossego
que rasga o estado esmaecido;
Descubro-me já sem fôlego,
num estar convulsivo de um gemido,
de uma jazida descolorida,
que já esteve tão dorida!
O desterro agora vertido,
numa letra-morta,  
Na memória que me transporta,
que me precipita na saudade,
do sossego que de mim foi furtado!
O fim da certeza e o princípio da ambiguidade!
Permitir-me mais é tão desapropriado…
Todas as teorias reduzidas a um só argumento!
Resplandeces olimpo no estremecimento!
Na lembrança que me assalta...
A banhar-se no fluido cósmico transluzente,

de um precipício incandescente.



Isabel M.P.F- BeA 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Se existisses




Se existires – Quero que saibas que me arrependo
de  não viver nesta magistral sinfonia
onde penso em desatar tudo que não existe - Ou existia!
Sim, penso em edificar-me num diferendo!

Amornada, desencolher-me em memórias.
Turbilhão de apego ritmado.
Cúpula de luzência das minhas glórias.
Nivelada pelo bem-querer do meu amado.

Ter aí um lugar, na pacífica ínsua,
que criaremos para nós. Onde posso andar nua
sem recear os nós que ao longo da vida dei,
numa escultura do que pensei.
Vazar-me rainha num molde de gesso de rei!

Desencardir de mim - o que mais temo – Ou temia,
num novo momento onde não sou efémera,
onde me alforrias da solidão deste dia .
Se existisses - Arquivaria o recenseio de esfera
nesta e em toda travessia.
Se existisses – Serias um ciclotrão que me desvaria.


Se existisses – Serias bálsamo que nunca julguei conhecer.
Nudez da futilidade a enrubescer.
Casulo inimaginável entre as ruínas.

Se existisses -Escoaria das minhas minas
os reflexos desmultiplicados
de uma existência cingida
pelos meus malabarismos.
Se existisses – Não seria um Cineteatro
de uma desconhecida.

Não praticaria a catoptromancia do cansaço!
Não entraria nunca em palco ou teria um teatro!
Não estaria em espasmos.
Não seria mais um destroço.
Nada mais no meu universo seria baço!

Já não seria mais um Frankenstein. Esse seria extinto.
Não seria mais uma encoberta – Seria eu!
Nem azul, nem branco ou tinto!
Deixaria de ser obra dos outros, incapaz de esgrimir,
para ser só, exclusivamente, eu.
onde nem a desesperança me podia oprimir!




A sonoridade da minha culminância? -Ser eu.
Não precisar gelificar mais o meu museu!
Acabar com as descrenças que obtive no contrabando.
De uma indolência deprimente que vou silenciando…
 Em mais um pranto,- Num solilóquio meu.
Se existisses - Nenhum torcionário fosse espadaúdo ou esguio
conseguiria alterar aquilo que mostro que sinto e sou.
Se existisses seríamos - O quanto de afecto me dás, o quanto te dou.
Se existisses agora ias presentear-me com o teu obséquio.

Se existisses…- Este não seria o epílogo deste escrito.



Isabel M.P.F.- BeA

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pleonasmo


Hoje a solidão brada neste solavanco.
Onde me contrabalanço. -Onde me atranco.
Perpassando o silêncio com linhas nas agulhas,
que me costuram os lábios nesta insalubre realidade.
Minha alma despedaçada, vagueia a alardear em fagulhas,
no fogo que me consome - Algures na obscuridade…
Traço circunferências onde nunca sou o núcleo delas.
Traços das minhas ameias com janelas …
A desabar sobre a veracidade de um astro,
a rodopiar em torno do universo de alabastro,
daquilo que anseio – Daquilo que bloqueio.
Circunscrevo-me ininterruptamente neste devaneio
até ao infinitesimal fragmento,
na troada da chuva e no múrmur do vento
de um estar que se esvai no arruamento,
Numa miríade de espasmos...
Que em mim transborda em pleonasmos...
Numa miríade de espasmos...


Isabel M.P.F – BeA

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Garrafa vazia

Arremessada ao céu
 das apoteoses e quimeras...
De uma garrafa poisada na margem
Diáfana sem véu.
Rodeada de infinidade e feras...
Ao longe a miragem...
Tão perto das ondas em escarcéu.
Arremessada ao céu,
num torso de uma gota viadora,
paira o olhar de canfora
em duelos de cristal.
Afadigada de tudo o que lhe soa fatal
descansa ali os barbantes burilados,
na garrafa vazia já sem líquido ou desígnio,
Tal como outros vazios ajaulados
que lhe adentraram no peito…
Já sem escrutínio
para outros feitos – Ou feito…
Garrafa vazia arremessada ao chão
que não se lascou ou partiu…
Baça sem cintilação
 sem saber como a inquietação surgiu,
arremessa ao céu,
 pensamentos diáfanos sem véu.
Ao longe a miragem...
De uma garrafa poisada na margem...


Isabel M.P.F – BeA

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Escritura de repudio


Amanhã quando abrirem os portões daquela multidão de lápides eu tentarei lá estar – A visitar a única multidão silenciosa que conheço. – E aonde dizem que estás a descansar e que a minha irmã também descansa ali. – Como me ensinaste a ser tolerante acato que para os outros é ali que estão. – Que para eles, vocês precisam de uma lápide para estar.
Também lá devem estar estes pêsames – “Esta é a verdade – Partimos todos para outro reino- Não somos nada e nada de nós resta no fim” .
A minha irmã estava agarrada ao meu braço e parecia ainda mais frágil quando estremeceu. Tive de me inclinar e dizer-te ao ouvido - Vês afinal a mãe não faleceu. – Ai que a malandreca afinal foi para outro reino e não nos levou! – Tu limitaste-te a apertar-me mais o braço quando o indivíduo se preparava para pregar mais senso comum.
- Duas irmãs tão diferentes – Uma lavada em lágrimas e a outra…
Nesta altura não sabia ainda que podia repudiar e por isso quis pedir que fosses pregar a verdade noutra paróquia, mas não o fiz. Preferi pensar que é o que me ensinaste mãe que me impediu de tal e não o facto de ser um organismo rudimentar, sem pretensões a mais. – Não fosse o que ensinaste e eu teria tratado como dejecto aquela verdade – Não me tivesse sempre me sentido amada e compreendida o que me cedeu a harmonia psicológica para encarar os momentos que nem sempre são como os que desejava. – Não me tivesses tu ensinado a ser compreensiva e era bem possível que no dia do teu descanso final -como preferem chamar- eu tivesse feito como aquele indivíduo que nos tratou como dejectório da verdade dele. -A tua forma de estar e ser. - A tua compreensão e disponibilidade e tudo o que me proporcionaste… – Até a cumplicidade nos nossos olhares não descansam ali. -Não! – Não é assim o nosso fim! - A nossa forte vivência não descansa ali – Não foi o fim nem para ti, nem para a minha irmã! – Se tiverem que descansar nalgum lado então que seja nas minhas memórias.  

Foi convicta deste pensamento que repudiei, mãe. - Estava a repudiar propriedades e capitais. Nunca repudiarei afectos. Assimetrias – Ou as nossas vivências. – Mas não vá estares mesmo noutro reino e julgares que não entrar no cemitério  é mais um repudio meu – E amanhã tentarei ir lá visitar as vossas lápides.

Isabel M.P.F- Be A

terça-feira, 2 de junho de 2015

Será assim

Será assim a minha velhice...
A avoaçar num vórtice
 de neblina e entorpecimento.
Quebrantada pela guilhotina do tempo.
Alongo as mãos no que me silencia
que me há-de agastar num só lamento.
Aniquilada pela ascensão desta nostalgia,
escoo-me ainda da enxurrada.
Apresso-me a reagir desalvorada.
E sumo como quem se desvanece
na mesma prostração
Do que aqui se adensa...
Como última acção.


Isabel M.P.F - BeA