domingo, 30 de novembro de 2014

Nunca mais

Antigamente não sabia querer.
Não queria mais de tudo.
Não queria saber.
Antigamente nunca me faltou conteúdo
no vislumbre do que me consentia sentir.
E só depois de a alguém o admitir
É que descobri que posso querer mais de tudo…
Descobri também que não voltarei a querer.
 E ou tenho mais e mais de tudo
o que quero, de tudo o que necessito…
Ou não quero nada. E até nada me parece muito.
Ou tenho mais e mais de tudo…
Ou serei continuamente a névoa que passa
entre a neblina de um pestanejar
que ninguém vê e não nos maça.
Querer mais e mais só serve para nos rastejar!
Era um rumor, era assim antigamente.
É assim que quero voltar a ser.
A que sente parcialmente…
numa folha que nunca vai amarelecer
na descoberta de que pode mais querer.
Quero ser como tu, a que parodia
e acusa de grande aborrecimento
Quem peca em saber querer!
Serei um dia novamente
A que não quer saber. 
Nunca mas nunca mais vou querer.
Nunca mais vou querer saber. 

Isabel BeA. - Isabel M.P.F.

Túneis de ciprestes

Entro no túneis , num de ciprestes
 e cruzo-me com a memória de ninguém.
Entrelaço as minhas memórias com as de alguém
no meio da esplanada de coisas rupestres.
 A hesitar entre o tradicional e o moderno…
A conversar com a memória de ninguém.
Ainda presa ao meu próprio inferno.
 Ampara-me a tua expressão desencantada
E a forma como não afirmas que estás ali só para descontrair.
Naquele túnel de cipreste, fizeste-me sorrir e rir.
Partilhaste a tua batalha e só por pouco não lhe chamaste alhada.
Afirmaste por outras palavras que o tempo tem um efeito medicinal.
E que depois de a queda levantar-te-ias. Que era sempre o que afinal
Fazias. 

Isabel BeA.

Serei

É assim que te quero…
Com todo o vigor do meu afecto.
Mesmo que este desejar se afigure incorrecto.
É assim que te quero.
Não te sei querer doutras formas.
Nem quero saber de normas.
Quero-te como a terra precisa da lua.
Quero deslizar em ti até me liquefazer no teu mar.
Quero-te como a terra precisa do ar.
Quero-te como um solo escorrido precisa de água.
Mas nada em ti me quer como te quero.
Nada em ti me sabe querer como te quero.
Adormeço a sonhar que um dia despertarei
E depois de tanto te querer…
Desperto e já não te quero. Já nem quero saber.
Já não terei saudades de ti. Já não te triturarei.
Já não me provocará dor o quanto não tenho.
Nem quero saber se franzes ou não o cenho.
Serás só mais um que amei.
E eu já não quererei saber dos teus afectos.
Serei novamente a que nada quer.
Serás para mim como são os outros. – Um qualquer.
Serei a que vive fora desses trajectos.
Serei novamente a que não tritura. A que nada quer.
A que vive sem saudades ou desse tipo de afectos.
Isabel BeA.


Cinzelei

No teu olhar que de mim se descurou…
Cinzelei um pensamento num crepúsculo distraído
Cinzelei um inaudível lamento esquecido…
Que languidescia numa cascata que ao longe se quebrou.
No teu olhar que de mim se descorou…
Cinzelei uma prosa sem sentido.
Cinzelei um sorriso abstruso….Perdido.
No teu olhar que de mim se descorou!
Disperso-me toda nas réstias amortecidas do que sobrou.
Disperso-me na ausência de um crepúsculo implodido,
Nesse querer que já me sobraçou.

Isabel BeA

Epílogo

Os meus passos contam o último adeus.
no silêncio do tempo cronológico molhado e abafadiço.
Nas margens arenosas da ausência de ti. De nós. Disso.
No arrastar dos pés pelos infernos que já foram os meus apogeus.
Já não vaguearei mais na memória nos teus labirintos viridentes
de onde nunca sentia vontade de entrar e nunca sabia como deles sair.
O meu olhar hoje emparceirou de manhã com o dos sorridentes.
Com os enamorados que se abraçam a sorrir.
Os meus passos contam agora o meu epílogo.

Isabel BeA.

Vertigem


Só se desencanta quem se encantou…
Só se desencanta quem se embaiu…
Só se desencanta quem com a imaginação se adornou.

Existia um pesar que desconhecia
Por estar ausente da minha existência.
Uma dor que nasceu dum ventre que nunca possui.
Um nado morto da minha imaginação!

A dor da vertigem do distanciamento
A germinar na desilusão
De um eco daquilo que agora lamento…
A germinar na decepção,
De um eco…Eco que já me acalentou…
Eco, eco de um verdadeiro lamento…

Só se desencanta quem se encantou.
Só se desencanta quem se embaiu.
Só se desencanta quem com a imaginação se adornou.
Fecho os olhos raiados de vermelho
Quase tudo me soa a velho…

Isabel Be A.

sábado, 29 de novembro de 2014

Não, não vos deixo ir!

Olho-vos pausadamente por entre as lembranças do nosso passado.
Olho-vos saudosamente e vejo-vos debruçadas na constelação.
Por isso estaco na entrada daquele maldito portão
de  multidão silenciosa e sepultada.
Onde está a minha mãe e irmã qual delas a mais amada.
Dizes pai que é a minha sensibilidade que me impede de ali entrar…
E avanças pesadamente com as tuas flores que já começaram a mirrar.
Avanças decididamente enquanto toco no portão de ferro e o sinto gelado.
Tacteio as grades como vos tacteio em todas as estações
 de  barco à vela nas minhas recordações encalhado,
que não deixo deteriorar e bordei no vosso olhar por mim amado.
Não, nunca estarão ali a descansar! Descansam nas minhas emoções.
Descansam nos meus sentimentos. O que me deram não seca e sim medra!
Descansam no vento que sopra entre o arvoredo que me rodeia.
Descansam em tudo o que comigo partilharam e agora me ladeia.
Guardo-vos no interior dos círculos de uma pedra
que resvalou sobre a água da nuvens do esquecimento alheio.
Não entro no cemitério. Não está uma no princípio e a outra no meio!
Não é ali que habitam. Nunca vão repousar ali… Nem acolá.
Nem vos levarei flores ou rosas, nem cravos ou alecrim.
Tudo o que sinto por cada uma nunca terá um fim.
“É altura de as deixares ir. Nenhuma delas nos dirá novamente olá.”
Ecoa esta frase..Nenhuma de vocês me dirá nem mais uma só vez: Olá.
“Olá filhinha, olá maninha” – Mas o que deram em mim emana.
Cada uma de vocês habita em mim. No meu silêncio, na minha alegria.
Na expressão sonhadora da Ta. Na alegria da Sara. No riso dobrado da Maria!
Não, não vos deixo ir! Não, não entro naquele cemitério!

Dou-vos a mãos e levo-vos a passear à beira rio.
Isabel BeA.

Linhas

Ascendi as escaleiras da alvorada…
Descobri uma ambivalência emotiva.
Descobri-me cansada,
ainda a luminosidade não me saudava.
Subi degrau a degrau a tecer
na palma da minha conspecção.
Linhas de influência ainda por resolver.
Onde uma linha de comboio
choca com uma linha de avião.
A meio parei de tentar adormecer.
Andarilhei pelas memórias
onde componho listas por acontecer.
Tenho feito estas listas por categorias,
para as reciclar nas noites como esta.
O que quis fazer, o que quis viver, aonde ainda hei-de ir.
Guardo-as ali no depósito das noites sem sono.
Dos despertares para noites como esta sem dono
Que dou por mim a subtrair
horas ao meu descanso nesta ambivalência emotiva.
Neste circunlóquio da intempestiva.
Ascendi as escaleiras da alvorada…
Descobri uma ambivalência emotiva
Descobri-me cansada,
Ainda a luminosidade não me saudava.
Isabel Be A.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Solipsista

Só é real o que sinto.
Só é sentido o que penso. 
Tudo o mais, hoje não existe. 
Se não penso, não sinto! 
Se não sinto, não penso nisso.
Fita-me com concupiscência tudo aquilo que não penso
A fazer acrobacias sobre aquilo que não sinto. 
Começo a contagem lenta daquilo que penso…
Proclamo de forma abrutalhada :- Só é real o que sinto! 
- Só é sentido o que penso!
É o que penso que me faz sentir. 
O que não penso não me instiga nada!
Não tivesse eu esta capacidade e não sentiria.
Seria como uma flor roçada ao de leve pela humidade.
Que não pensa! Que não sente.
Que nem sabe que está a ser tocada.
Que não sente o toque da cacimba.
Que não se apoquenta com nada.
Que só existe porque penso nela. 
Fecho os olhos e não penso.
Não , não penso em ti. Não penso em mim. 
Não penso que estás aqui, ou ali.
Não penso que isto é assim e podia ser tão diferente…
Ao não pensar não existes e eu não sinto! 
Vocifero ao vento:- Só é real o que penso!
-Só é real o que sinto!
-Só é sentido o que penso!
Não penso em ti. Nem em aqui ou ali.
Quero ser como a flor que não sente. 
Que pode ser colhida pelo meu olhar...
Ou por uma mão que ao passar a colhe
com cobiça e ela não terá consciência disso,
Quero ser como o vento, a brisa, ou um chuvisco 
que não pensam, que não sabem sentir.
Quero ser um traço,uma vírgula, ou um risco...
Ou uma flor que se esqueceu de sentir.
 Isabel Be A.

Ocasionais

Tenho por vezes destes encontros ocasionais.
Onde por breves segundos, me sinto macambúzia e fatalista. 
Onde contemplo a lombada do momento, 
Onde entro nos arraiais. 
Onde nada além de silêncio acrescento.
Tenho por vezes destes encontros ocasionais….
Onde quero entender o nada absoluto e toda a energia espiritual.
Enquanto me engrinaldo na ausência de moléculas ou átomos.
Onde descubro que já fui uma montanha, mas ressuscitei num vale.
Onde descubro que o meu rio perdeu o caudal.
Tenho por vezes destes encontros ocasionais…
Onde dou por mim a fitar o vácuo ainda em processo embrionário.
Olho-o fixamente. Vejo-o recuar visivelmente assarapantado.
Tenho por vezes destes encontros ocasionais…
Onde procuro a ausência no impensado. 
Onde solto os meus risos e todos os meus ais.
Depois disto, sinto necessidade de esmoutar novos caminhos
Depois de andar às voltas na mesma rotunda 
Onde tive destes encontros ocasionais, 
Retenho a respiração enquanto dispo a corcunda.
Depois de encetar a mesma odisseia 
Sento-me nesta plateia…
Be A.