segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Saudade

No limiar da saudade que não deixo transparecer.
No patamar da saudade que não devo mostrar.
Modelo daquilo que não se deve sentir nem ser.
Se em vez de saudade, só vertesse melancolia…Como seria?
E se eu fosse outra coisa, o que seria?
Não há como me desmascarar.
É toda minha a saudade, é toda minha a autoria.
Desta anteface, sou eu a senhoria.

No princípio da putrefacção
mobilizo toda a determinação,
para afastar a saudade.
Um sismo descomunal desloca um alicerce
antes que o meu universo seja cortado cerce
guardo-me numa qualquer concavidade.

Emigro para o espaço desta composição.
Transcrevo-me por aqui num gesto de resignação.
Uso palavras matizadas ou sem cores.
Onde confidencio até as minhas dores.

Procuro subestimar a toxicidade
da malvada da saudade!
Negativo alvidramento da realidade.

Tornada em esmeril.
Pela saudade atormentada.
Seixos polidos num barril.

Nunca mais acaba Janeiro e chega Abril.
Procuro uma explicação para a malvada
no invólucro duro e espinhoso de desalinhada.


Be A - Isabel M.P.F.

Abrigo

Amamentei monumentos de dor.
Escassos de recursos, dobrador.
Genuínas monstruosidades
orladas pelas minhas lealdades
que nunca ninguém irá vistoriar.

Estou tão distante do olhar
que me carrego no único local
onde jamais alguém poderá espreitar.
Tenho gritos mudos neste arsenal

a conduzir cada palavra que aqui vou depositar.

Fitas-me enternecido. Sem temeres o meu receio.
A esse te mostras alheio. 
Despojo-me da armadura e embarco contigo
nesse brando olhar. Onde esvoaça a esperança
de ali existir um espaço. Um abrigo
onde me posso derramar.
- A tempestade aqui não te pode assolar.
Almejas a utopia. - As dores podem-se avassalar!

Eu que estou apinhada de angústia e quebrantos.
Nada mais que escombros dos meus lamentos.
Eu que só persigo a quietação…
Atiro o meu título ao chão.
 Mais convicto, voltas a murmurar:
- A tempestade aqui não te pode assolar!

Be A- Isabel M.P.F.