terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Mensagem

Durante meses chegava à porta e retrocedia. – Chegava ao jardim e começava a recuar até estar novamente no interior do carro. – Vagarosamente a minha irmã conseguiu que voltasse a ocupar o espaço em frente à tua cadeira. Cada uma na sua cadeira. – Durante tantos meses, deste-me a mão e ficavas ali comigo em silêncio. Depois começavas a conversar e dizias: Maninha eu estou aqui, podes ter a gentileza de não te armares em fortaleza comigo? -Pedias-me para chorar. – Que à tua frente não havia motivos para não o fazer. – Ridiculamente dizia-te que isso não era algo que se pedisse. E tentava aligeirar o momento afirmando que eras levemente sádica se me querias ver carpir. – Ouviste esta frase em todas as variações possíveis. – Nunca te consegui dizer que estava convicta que o precisavas era que no fim te desse o abraço e tu chorasses a nossa perda. Que era esse o meu papel. A que abria os braços para a nossa dor. – Ou preferia acreditar que alguém teria de ter coragem para abrir os braços e aquietar a dor que também era minha no caudal que escorria pela tua face. – Afirmei tantas vezes que não sentia necessidade de chorar a perda na tua companhia, que de certo modo comecei a acreditar nisso. Comecei a acreditar que as minhas lágrimas em nada iriam diminuir a tua dor e podiam agravá-la. – Hoje por fim apaguei a tua última mensagem.

Agora sento-me sozinha aqui. – Entre a cadeira vazia da mãe e da tua cadeira e tempo é algo que já não me falta. – Agora já não sou a viciada em trabalho. – Agora o meu maior vício é alienar-me. – Hoje por fim apaguei a tua última mensagem. – Na verdade podia tê-la apagado no dia a seguir pois nunca mais a irei esquecer. Mesmo sendo tarde demais para a ouvires, ou leres, aqui fica. – Também te amo minha mana querida. E mesmo sem nunca o afirmar, se para ti eu era a jóia tu para mim eras tudo. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Não quero saber

Não quero saber se nas mãos tenho muito ou pouco.
Não quero saber se me chamam empertigada ou recatada,
acho até graça a ser a que nunca foi ousada.
O meu espírito já não quer suspirar, já não quer sentir como um louco.
Tudo o que penso seja muito ou pouco…
Não passa de um reflexo pensando sem fervor.
Sei que serei a que pensou muito ou pouco.
A que pensou e viveu. A que pensou e morreu.
A que chegou tão perto de ter um pensamento louco.
Serei a que foi hipócrita com a vontade.
A que descobriu que o seu pior inimigo
era ela e que nunca escolheria o perigo
de viver com a saudade.
Serei a que sem nunca ter sonhado,
sonhou todos os sonhos do mundo e que o fez sem pensar.
A que olhou os outros com alegria mas também pesar.
Serei a que amou sem a terem amado.
Serei a que moeu os tormentos,
a que nunca pensou, mas teve milhões de pensamentos.
Serei talvez a que viveu feliz e abastada.
A que viveu só, mas também viveu acompanhada.
Serei a que viveu pobre e mal-amada.
A que tratou a esperança por tu e a mudança por você
e que nunca quis saber se era doce ou amarga.
Serei a que nunca quis saber se tinha muito ou pouco.
Mas a que quis tudo e que descobriu que o seu coração
 sabia querer como um louco.

Não quero saber se nas mãos tenho muito ou pouco.
Não quero saber se me chamam empertigada ou recatada.
Acho até graça a ser a que nunca foi ousada.
O meu espírito já não suspira, já nem sente como um louco.

Isabel M.P.F. - BeA.