Durante meses chegava à porta e retrocedia. – Chegava ao
jardim e começava a recuar até estar novamente no interior do carro. –
Vagarosamente a minha irmã conseguiu que voltasse a ocupar o espaço em frente à
tua cadeira. Cada uma na sua cadeira. – Durante tantos meses, deste-me a mão e
ficavas ali comigo em silêncio. Depois começavas a conversar e dizias: Maninha
eu estou aqui, podes ter a gentileza de não te armares em fortaleza comigo? -Pedias-me
para chorar. – Que à tua frente não havia motivos para não o fazer. – Ridiculamente
dizia-te que isso não era algo que se pedisse. E tentava aligeirar o momento
afirmando que eras levemente sádica se me querias ver carpir. – Ouviste esta
frase em todas as variações possíveis. – Nunca te consegui dizer que estava
convicta que o precisavas era que no fim te desse o abraço e tu chorasses a
nossa perda. Que era esse o meu papel. A que abria os braços para a nossa dor. –
Ou preferia acreditar que alguém teria de ter coragem para abrir os braços e
aquietar a dor que também era minha no caudal que escorria pela tua face. –
Afirmei tantas vezes que não sentia necessidade de chorar a perda na tua
companhia, que de certo modo comecei a acreditar nisso. Comecei a acreditar que
as minhas lágrimas em nada iriam diminuir a tua dor e podiam agravá-la. – Hoje por
fim apaguei a tua última mensagem.
Agora sento-me sozinha aqui. – Entre a cadeira vazia da mãe
e da tua cadeira e tempo é algo que já não me falta. – Agora já não sou a viciada
em trabalho. – Agora o meu maior vício é alienar-me. – Hoje por fim apaguei a
tua última mensagem. – Na verdade podia tê-la apagado no dia a seguir pois
nunca mais a irei esquecer. Mesmo sendo tarde demais para a ouvires, ou leres,
aqui fica. – Também te amo minha mana querida. E mesmo sem nunca o afirmar, se
para ti eu era a jóia tu para mim eras tudo.